Regresso

Regressei sabendo que não estavas. Procurava-te, procurava-nos. Dias de reflexão, na nossa cidade. Tudo estava mudado, desde o quiosque da manhã ao pub que aquecia a noite. Quando as luzes da última madrugada foram desligadas, compreendi que tudo estava perdido. Encontrei-me.

O mundo do fim do mundo

Recentemente terminei “O mundo do fim do mundo” de Luís Sepulveda. Foi uma interessante viagem ao extremo sul das Américas. Era daqueles livros que eu ia lendo no intervalo dos outros. Um livro de denúncia às agressões do meio ambiente e um livro de viagem. Gostei.

Longe

Era um dia de calor insuportável. Os quarenta e cinco graus permitiam sobreviver na sombra ou dentro da água do mar. As ondas iam e vinham, refrescavam o mundo, possibilitavam a vida. A praia transbordava de guarda-sóis, uns montados sobre os outros. Autênticas cabanas, quase cavernas, formavam-se e abrigavam as pessoas. Pouca areia para pisar, sobrava entre as toalhas que se haviam espalhado por toda a extensão da praia. E o calor? Já se disse: insuportável. Porque estamos aqui? Porque não vamos embora?, cada pessoa ou até o coletivo perguntava-se em uníssono. Permaneciam, até o Sol baixar. Ali, ainda assim, era menos calor do que na cidade asfaltada.

Pedro está ali, surfando, num engarrafamento de pranchas. Incrível como não chocam umas nas outras, no meio de manobras, de tubos, de cutbacks, floaters, aéreos, uma infinidade de acrobacias.

Ofélia também doma as ondas com o seu bodyboard, confiante de que o mar é seu, de que não precisa preocupar-se com o mundo. Tudo se regula automaticamente, para que ela possa gozar o mar, a vida.

Dois peixes saltam, ultrapassam-se, distanciam-se, unem-se ao cardume, aproximam-se. Numa onda mais forte as suas trajetórias cruzam-se, uma mão, perdão, uma barbatana encosta em outra. Olham um para o outro e reconhecem-se de outros mergulhos.

Vamos para fora de pé?, perguntam-se e a resposta é dada longe, estão longe. Longe, no meio de todos. O espaço agora é amplo e também o tempo mudou, as horas aceleraram devagar. Está na hora, o Sol despencou no horizonte. Voltam para terra e lembram-se que, afinal, são humanos.

No meio de um mojito, um beijo. Que bom estarmos só os dois nesta praia apinhada de gente. Uma pausa, outra onda, a resposta: é verdade.