Depois

Depois das quatro da manhã, Duarte acordou sobressaltado com o choro de criança que vinha do sótão da casa. Raramente subia as escadas. Ofegante, nervoso, transpirado, buscou as chaves na gaveta levemente empenada, que guardava objetos com pouco uso. Pisou os degraus, que rangeram com desconfiança perante a sua passada ansiosa. A fechadura e a porta exalaram o pó premonitório de mistério. Entrou no sótão guiado por um choramingar próximo, em presença e em espírito. Em cima de uma caixa de joias, um bebé estava dentro de uma alcofa. Pegou a criança que, com o abraço, parou de chorar. O lugar iluminou-se, com dezenas de velas que se acenderam inexplicavelmente.

Do outro lado da sala, uma porta abriu-se, no cimo de umas escadas que ele desconhecia. “O que fazem aqui em baixo?”, perguntou uma mulher loira, que desceu as escadas. “Aqui em cima, quer dizer”, ele respondeu. “Vejo que não percebeu. Minha cave é o seu sótão. Compreende?”. Os olhos azuis da senhora eram feitos de desafio.

“Não compreendo”, disse Duarte, confuso. “E esta criança?”, completou como em desabafo. A resposta da loira pareceu ser dada pelos olhos, duas brasas azuladas que falavam ao invés da boca: “Este filho não é meu. Esta casa não é tua.”

“Nem tua. Mas deve ser de alguém”, Duarte arriscou esta réplica disparatada. “Um dia vais entender melhor. Eu vim a seguir. É natural a tua ignorância.”, ouviu Duarte da parte da loira, que acrescentou um enigma: “Talvez cedo demais o encontro tenha acontecido”.
Duarte perguntou-lhe o nome. “Um dia o escolherás. Descansa agora, que é quase de manhã”, respondeu a mulher.

“Não compreendo nada”, Duarte confessou, exausto.

O bebé abriu os olhos, de um azul sem igual, e disse: “Talvez te explique depois”.

Monumental

No andar de baixo estavam as mesas de snooker. Todas elas verdes, se não me engano. Dezenas de estudantes, do secundário, do Liceu Pedro Nunes e do Machado de Castro, iam lá jogar, pensando fazer parte do elenco de A Cor do Dinheiro, vivendo a sua personalidade entre Paul Newman e Tom Cruise. As mesas eram a figura central da sala. Ao longo da parede esquerda e nas paredes mais ao fundo, amontoavam-se os pinball e os videojogos, com suas melodias próprias, gotejadas pelo barulho das moedas a pingar, a melodia que os donos do salão de jogos mais gostavam de ouvir. O leitor imagine os seus jogos favoritos. Não arrisco nomes para ilustrar o entretenimento das máquinas. Lá havia todos, passaram todos. Se fosse citar os jogos mais clássicos e mais populares, este texto transformar-se-ia numa longa lista e mesmo assim teria inúmeras omissões.

Ali mais ao fundo, repare, quase a chegar às escadas, estão os matraquilhos. Os matrecos, para falar em português correto. Esta barulheira infernal, que quem joga não ouve, são dos bonecos de ferro a serem conduzidos de um lado para o outro, a rematarem a bola e a chocarem contra as paredes de madeira que delimitam as pequenas réplicas de campos de futebol. Se não quiser assistir aos golos e à azafama de duplas de jogadores a jogar e à espera para entrar no perde-paga, suba pelas escadas. No cimo dela há mais algumas mesas de snooker, ping-pong e ainda mais máquinas de jogos.

Foi neste segundo andar que ouvi uma vez um conhecido a tocar All along the watch tower, em versão U2 (e não do Nobel Dylan). Não sei se foi com ele que aprendi a sequência dos acordes ou se foi a ver o próprio The Edge, em Rattle and Hum, filme icónico da banda irlandesa, ao regressar de uma daquelas tardes/noites na Álvares Cabral, no Monumental Salão de Jogos, conhecido como Vergas (pronuncia-se vérgas).

Do Vergas íamos para outros lugares. Para o Bairro Alto ou para alguma discoteca, longe dali, ou para a que estava mesmo ao lado: o Zona Mais (na minha época chamava-se assim, mas ele já se havia chamado Loucuras).

Entretanto, o Monumental transformou-se numa loja de roupas. E da última vez que entrei no Zona Mais, penso que em 2009, ele era um estúdio da RTP.

De volta

Mas o melhor de tudo, é mesmo voltarmos a juntar os quatro de sempre, com as suas diferenças, manias, convergências, resmunguices e acertos. A partir da próxima segunda, com alguma decalage de horários, os Understood voltam ao seu formato inicial, por uma hora e vinte, pelo menos. O resto é preenchido pelas cordas. Há muita coisa nova para criar, músicas por gravar e concertos para preparar.

ZP

Fica o registo de um gajo altamente, que estudou as músicas e que fez o melhor que conseguiu. O Zé Paulo parecia que já nos conhecia há muito tempo. Trazia a Old Whisky bem estudada e foi interessante ver que ele gostava tanto de nossas músicas, que era tão desafiado por elas.

Leitura

Com o fim das revisões, reiniciei, timidamente, a leitura. Acho que leitura, mesmo que tímida, não deixa de ser leitura. Preciso crer que sim. Isto, lento, que ando a fazer aos livros, é o que me envolve com “A Borra do Café”, de Benedetti. Gostava de conseguir sentir a sensação de terminar um livro, outra vez. Faz tempo que não a tenho com regularidade. Estranhamente, senti isso recentemente com o último livro de JK Rowling, “Harry Potter e a criança amaldiçoada”. Benedetti, a ver se conseguimos. O Paul ouviu falar muito em ti.

Jam sessions em toda a parte

Francis e Mick (este com o seu toque de jazz) estiveram a tocar conosco. O Márcio também (e foi brutal). Todos excelentes em vários sentidos. Gostam sempre muito das canções. Neste tipo de sociedades importa muito menos a técnica do que a empatia que todos nós temos de ter. De um lado e de outro. Uma espécie de sentimento de família. Depois de um ano à espera, a procura começou muito a sério. Como sempre, tudo vai dar certo. Somos imparáveis.