Comunicado da Casa do Brasil de Lisboa

É com muita consternação que recebemos a notícia do falecimento de Alípio de Freitas, sócio nº 1 da Casa do Brasil.

Alípio de Freitas, o Padre Alípio para muitos militantes da esquerda brasileira dos anos 60 em diante, foi co-fundador das Ligas Camponesas no Maranhão, da organização de esquerda católica Ação Popular, dirigente máximo do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, um dos muitos grupos revolucionários da esquerda no combate à ditadura militar. Alípio foi uma referência para a esquerda brasileira de antes e de depois do golpe militar de 1964. Preso em 1970, seu comportamento firme e altivo na prisão e na tortura tornou-se lendário. Quando saiu em liberdade, com a anistia de 1979, denunciou todos os seus torturadores no livro Resistir é preciso.
Uma referência no Brasil e uma referência em Portugal, Alípio de Freitas encarnou a cidadania luso-brasileira e as grandes causas dos migrantes.
Incansável organizador e dirigente da Casa do Brasil nos seus primeiros anos, ele foi a “chave-gazua” que abria as portas da Casa do Brasil junto a muitos setores da sociedade civil portuguesa, pelo seu prestígio e carisma militante.
A Casa do Brasil chama a seus sócios e amigos a comparecerem à homenagem realizada pela associação José Afonso no próximo sábado, 17 de junho no Fórum Roma.
O maior tributo a Alípio de Freitas é continuar a luta pelos seus ideais de toda uma vida de 88 anos dedicada a combater as injustiças e desigualdades deste duro mundo que nos tocou viver.

O Alípio deixou-nos

O Alípio de Freitas deixou-nos, mas deixou-nos tanto. O seu corpo já estava fraco, mas esteve sempre enorme de ideias. Tive a oportunidade de levá-lo a uma iniciativa no Mercado de Santa Clara (na Feira da Ladra) e colocá-lo em casa, na volta. Ele devia falar alguns minutos, mas foi impossível interrompê-lo, para bem da plateia. O Alípio falou sobre o Zeca. Uma história linda. Sobre como o encontrou, como conviveu com ele. Impossível repetir. Alípio por ele próprio, pode ler-se no blog Entre as Brumas da Memória.

A tempestade

Fez o que tinha a fazer: chaveou a porta, trancou janelas, organizou os víveres. Peças de louça, mobiliário frágil, colocou no chão. Carregou telemóveis. Deixou as velas prontas. E havia a velha espingarda do seu avô. Não serviria para nada, mas mesmo assim a carregou.

Reviu os passos, tomou notas e depois foi para o seu posto. Por uma pequena fresta havia passado uma rede e por outra fenda atravessou um aspirador para que, durante a passagem da tempestade de palavras, pudesse tirar algumas frases, alguns versos, ou mesmo livros inteiros, para si e para quem quisesse ler também.

Tal como as previsões meteorológicas, astrológicas e literárias haviam anunciado, aos dezoito segundos, dos dezoito minutos, das dezoito horas, levantou-se no horizonte a poeira das palavras, a trovoada das letras, o furacão dos textos.

Enquanto o espectro escurecido de letras aproximava-se, ele ia lendo as diversas mensagens que a tempestade ia constituindo, a força que tinham aquelas orações criadas por um tufão, aleatoriamente. Algumas frases pareciam dirigidas para si, como se a ventania quisesse comunicar consigo.

Quando a tempestade chegou à sua casa, parecia que tudo iria ruir. Por sua caixa de correio entravam ameaças literais de que a sua casa ia desabar, mensagens que conclamavam os livros do interior da casa à rebeldia. Este pormenor havia sido acautelado. Sua biblioteca havia sido transferida para a cave.

Esperar passar.  A tarde e a noite seriam assim.

Pela manhã a rede e o aspirador estavam cheios de versos e livros. No meio de todos eles, um se destacava, com capa dourada. Ele abriu, folheou e surpreendeu-se com a dedicatória: “Para ti, que pacientemente esperaste que as palavras certas chegassem, que venceste a tempestade, dedico esta capa e algumas frases iniciais, que irão inspirar-te até ao fim deste livro – a tua obra”.

Assim seria.