Dom Quixote de La Mancha

Aos seus pés caíra Dom Quixote de la Mancha. O livro desabara de uma prateleira alta, que roça o teto renascentista da livraria. Paul olhou para cima e todos os anjos, pintados em perspetiva, pareciam tocar uma melodia para ele. O velhote, dono da livraria, cutucou-lhe o ombro. Guzman às suas ordens. Os anjos gostam de si. Gosta deles? Paul riu. Surpreendido com a pergunta e ao mesmo tempo com pressa, questionou: procuro o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Tem? Guzman respondeu: Excelente escolha. E o Dom Quixote que lhe caiu nos pés, não vai levar? Não estou interessado, respondeu Paul e viu o livreiro sorrir-lhe com sarcasmo.

A sineta da porta tocou, uma criança entrou com miniaturas de moinhos de vento. Querem ventanias? Ele não está interessado, disse o velhote, cantando as palavras, ridicularizando o freguês. Paul estava atónito com a falta de educação. Tem o livro de reclamações?, perguntou. Até tenho mas não vou queixar-me de si, foi a resposta. Paul ouviu risadas, vindas do teto. Os anjos haviam-se reunido num canto e gargalhavam. Atormentado e com o livro de Huxley na mão, saiu para a rua. Ventava. Um cavalo estava atado ao para-choques do seu carro. Com medo de levar um coice, desatou a corda. Estranhou o cavalo, ali na Baixa. Um sujeito muito gordo saiu de um café. Dirigiu-se a Paul: onde o amigo vai amarrar o cavalo? Tudo era insólito naquela tarde. Não sei. É seu? O senhor da pança arregalou os olhos e alertou: o Rocinante é do mais nobre cavaleiro do Reino, Dom Quixote. Já sabemos que não quis trazer o livro para um autógrafo. Depois abriu a porta do café, com ar cerimonial, e Paul viu dali sair o mui ilustre cavaleiro Dom Quixote, que subiu em seu cavalo.

Chape

O avião onde seguia o Chapecoense, time de futebol de Chapecó, de Santa Catarina, despenhou-se ontem, a caminho da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, da Colômbia. Era o maior momento da história do clube, que inclusive vinha fazendo um bom brasileirão, na nona posição. Morreram quase todos os que estavam no avião, incluindo dirigentes do clube, da CBF, acompanhantes, jornalistas. Uma tragédia enorme, um golpe do destino. Lembrei-me da desgraça que ocorreu ao Torino, a tragédia de Superga. Soube também que o Manchester United passou pelo mesmo.

O futuro

Márcia abraçou Jefferson, junto ao lago. Os dois perdiam o olhar, sem saber, no mesmo ponto: um barco a remos encalhado, onde uma família de patos entretinha-se a mordiscar o musgo que havia crescido num remo partido. Lançavam-se à água a seguir.

Jefferson, penso muito em nós, nos últimos meses. Não é fácil estar no desemprego. Foi muito difícil comparecer em todas as sessões de “formação”, que não serviam para nada, que não nos ensinaram nada de novo. Sempre pensei que seriam apenas horas perdidas. Mas não. Serviram para estarmos aqui, disse Márcia, com os olhos agora a focarem um pato que nadava, mergulhava, e voltava à tona, como se estivesse numa aula de natação. Uma criança ia deitando pedaços de pão na água. Toda a fauna submarina também se manifestava: peixes e tartarugas movimentavam-se, disputavam as migalhas que boiavam, influenciavam o mundo que estava para além da sua realidade aquática.

Jefferson respondeu: sabes Márcia, apesar de nos terem ensinado tanto sobre busca ativa de emprego, verdadeiramente empreendedor foi convidares-me para aquele café e chegarmos atrasados à sessão. Sem saber, começamos ali o nosso start-up relacional.

A criança veio até junto dos dois. Estendeu-lhes o pão. Querem pão para dar aos patos? Quando eu dou, as tartarugas e os peixes aproveitam e comem também.

Jefferson e Márcia, conjugados também nos pensamentos. Puxa-se um ponto do novelo da realidade e toda ela começa a alterar-se, sem sabermos onde vai parar, em total imprevisibilidade. A natureza é assim, comandante de um plano imprevisível.

A vida prega partidas, faz surpresas. O que pareciam horas perdidas, transformaram-se em tempos de investimento. Márcia e Jefferson, desempregados, agora tinham muito mais do que as carreiras destruídas pela crise na bolsa de valores. Tinham um ao outro. E todo o futuro.

O palhaço

Olívia tirou o seu filho, Gaspar, da montra da loja de brinquedos. Gaspar havia derrubado dois legos gigantes. As peças espalharam-se por todos os cantos, debaixo das prateleiras, e até, pasme-se, foram parar ao planeta Terra que servia de candeeiro da sala e imprimia uma tonalidade azul à loja.

Gaspar, com três anos de idade, chorava. A mãe alertou: filho, se voltares à vitrina, aquele palhaço que está ali vai ter connosco durante a noite. Sentado numa cadeira, inanimado, estava um boneco-palhaço do tamanho de uma pessoa, com calças às riscas encarnadas e brancas, um casaco azul e, evidentemente, um distinto nariz vermelho.

Enquanto a mãe foi pagar dois carros em miniatura para o filho, um grande barulho veio da montra. Gaspar tinha derrubado um avião que estava pendurado. Gaspar!, gritou a mãe e levou o filho dali, constrangida. O filho explicou: despenhou-se. Olívia riu-se, espantada com o filho conhecer a palavra e pronunciá-la tão bem.

À noite, Gaspar comeu a sopa e foi deitar-se. Perguntou à mãe, na cama: mãe, será que o palhaço vem hoje à noite? Eu voltei à montra da loja… A mãe preocupou-se, a antever pesadelos e uma noite mal dormida para todos: filho, a mãe não estava a falar a sério…

De madrugada, a mãe ouvia Gaspar a mexer-se na cama, inquieto. Sentia-se mal por ter assustado o filho. Ele devia estar a sonhar com o palhaço.

Às cinco da manhã a campainha tocou. Gaspar correu para a porta. A mãe via pelo olho-mágico, incrédula, o palhaço do outro lado da porta. Apesar do medo, deixou-o entrar. O filho deu um pulo de alegria, correu a abraçá-lo e disse: Que bom que vieste! Estava a ver que precisava derrubar mais coisas na loja para vires ter comigo!