Um pouco mais

Os navios, os barcos à vela, os veleiros atracados na costa de Lisboa, não precisam ser só isso. Podem ser navios de piratas. Tudo pode ser um pouco mais do que é. Olha o navio pirata! Titata, ele repetiria. E, às vezes, parado num semáforo, às onze da noite, é a própria realidade que nos surpreende. Os bombeiros, no seu carro – um ninó – contentes por verem a festa do pequeno abanando para eles, contribuíram, não só devolvendo o aceno, mas também acendendo as luzes e fazendo a sirene soar. Festa total. Nada precisa ser só o que é. Tudo é um pouco mais.

Pompeii

Havíamos explorado as ruínas, conhecido os recantos de Pompeia. Estava calor. Não tanto como a temperatura da lava que se havia esparramado pela cidade, em 79. E agora, na Arena, aproveitávamos para beber água fresca e comer, sentados nas arquibancadas.
Umas notas soltas surgiram, depois uma melodia arrastada e finalmente o baixo e a bateria entraram, espalhando-se pela aridez do espaço. Olhamos um para o outro. Não havia qualquer explicação. Apenas a música. Uma voz entrou:
Overhead the albatross
Hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
An echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine
O vocalista cantava sozinho, sem microfone, mas a sua voz enchia todo o espaço. Segundos depois, mais pessoas surgiram no palco. Todos, inclusive um baterista – sentado num pequeno banco de madeira – pareciam tocar outros instrumentos imaginários, guitarras, baixo e teclados. Eram os Pink Floyd.
Tentando aproveitar o momento, apesar de tanta euforia, era assim que estávamos. Demos as mãos para termos a certeza que víamos o mesmo.
Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand
The best I can
Chegada esta fase da música, os instrumentos, colunas, luzes e amplificadores passaram a estar visíveis. Como era possível os Pink Floyd estarem ali connosco, vindos diretamente de 1972? Levantamos, fomos para a primeira fila, vagarosamente. Ouvimos a música, contemplando aquela aparição, tão real. Quando a canção terminou batemos palmas. Lembro bem da expressão dos elementos da banda para nós, como que a dizer não deviam ter feito isto.
Um segundo depois só o chão árido restava, só o calor. Nada havia a fazer. Continuamos a visita, continuamos a conhecer Pompeia. Fica para sempre na memória.

Borboletas na Costa do Castelo

Paul passou à porta da casa na Costa do Castelo. Tinha saudades. Foram umas semanas muito agradáveis, lendo e tirando notas na janela-miradouro. Ia a caminho do Chapitô, beber um copo, apreciar a vista e ouvir música. Hoje não seriam os Understood a ir lá tocar, era chorinho. O trabalho de revisão final estava feito. Faltava só uma última leitura, antes de tudo fixar-se, antes da mancha gráfica. Uma borboleta amarela pousou na sua máquina fotográfica. Logo a seguir uma lilás pousou na sua mão e outra, verde, num marco de correio próximo. Olhou para cima. Milhares de borboletas a voar no céu de Lisboa. Muitas memórias continuavam a vaguear pelas ruas. Era impossível guardá-las a todas.

Portugal Campeão da Europa!

Breves notas:

– Ronaldo foi agredido aos 6 minutos de jogo. Começa aqui a história do jogo. O grande mérito desta seleção está sintetizado na gestão da lesão do Ronaldo. Esta equipa tinha muito mais do que futebol vistoso. Quando outras equipas teriam atirado a toalha ao chão, com o seu capitão afastado propositadamente, este Portugal aceitou isto, mas não aceitou a derrota;

– Ronaldo foi um grande líder, juntamente com Fernando Santos. Ronaldo veio para junto dos colegas, para o banco, para dizer: vamos ganhar isto de qualquer maneira. Se Fernando Santos e Ronaldo tivessem decidido que ontem era dia de ir à lua, talvez também tivessem conseguido;

– Uma seleção que vence mesmo quando joga mal é um ótimo sinal. Contra a Croácia comecei a acreditar na final. Aquele banho de água fria que o Quaresma deu nos croatas, na segunda parte do prolongamento, era um excelente indício. Espera-se o tempo que for preciso só a defender bem e à frente da baliza comemora-se, à mínima oportunidade. Magnífico;

– Quando a França venceu a Alemanha pensei que estava tudo estragado. Previ um gamanço sem precedentes. O que de facto ocorreu. Mas, ao mesmo tempo, no domingo acordei com aquele sentimento de que tinha de ser. Podia não ter sido. Felizmente foi;

– E depois há o Éder. Quando ele entrou eu contei lá em casa a lenda do Gabiru: super mal amado pela torcida, deu o título de campeão do mundo ao Inter contra o todo poderoso Barcelona. Comentei que era tão bom se se repetisse. Obrigado para sempre Éder.