Esperanza

O jornalista João Macário, do Jornal Diário, estava encantado pela oportunidade de ouvir o intelectual que havia influenciado várias revoluções recentes, libertando populações exploradas. Javier Esperanza olhava com uma expressão serena, de quem havia cumprido o seu papel. Escrevera muito sobre para onde o mundo tinha de ir, sobre ecologia, sobre esperança, solidariedade, distribuição de riqueza e pacifismo.

João Macário via uma brecha de incoerência no discurso de Esperanza. Queria confrontá-lo. O senhor é um pacifista, mas vejo que em casa tem esta metralhadora. Inclusive ela está exposta na sua sala de estar. Esta foi a metralhadora com a qual deixou-se fotografar na revolução de Isla del Arbol? Como explica isso?

Esperanza levantou-se, tirou a metralhadora da parede e colocou-a na mão do jornalista. Surpreso, Macário ouviu Esperanza dizer: dispare contra mim. O jornalista assustou-se e recusou-se. Dispare!, repetiu Javier Esperanza. O jornalista não foi capaz.

Vou-lhe dar um exclusivo. Esperanza pegou na metralhadora. Estas foram as metralhadoras usadas na revolução de Isla del Arbol. Não vou atirar contra si para não ter um ataque cardíaco, mas veja o que uma rajada faz. Ra-ta-ta-ta fez a metralhadora, direcionada para uma das paredes da sala. Agora temos de ser rápidos. Não podemos deixar que comece a crescer aqui dentro. João Macário viu Javier Esperanza recolher no chão várias pequenas luzes, de cores diferentes, que haviam sido espalhadas pela metralhadora. Espero não ter deixado nenhuma. Venha comigo para a rua, disse Esperanza. Na calçada, com alguma distância, o intelectual depositou as luzes. Estas começaram a se multiplicar em vários outros focos iluminados. Depois começaram a expandir-se, em formas retangulares. No final do processo, podiam ver-se dezenas de livros.

Ainda não conseguimos colocá-los automaticamente em estantes e os livros ficam desorganizados. Temos de aprimorar isto na próxima revolução, esclareceu Esperanza.

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Intemporal

Mil árvores ardiam, numa grande extensão de terreno. Choravam todas, numa sinfonia de dor. As chamas ganhavam velocidade. Nada sobrevivia. Ele sentia o calor, apesar de estar longe do incêndio. A noite parecia dia, iluminada pelo fogo insaciável. O dia havia sido como a noite, escurecido pela fumaça.

Ele lutava, sem meios, mas com fins. Sem ferramentas, mas com vontade. Dava tudo. Estou aqui para parar este fogo, isso é o que importa. Mesmo que seja impossível, tem que ser possível. Do outro lado, o monstro em forma de gente. Aquele que ao falar vomitava lixo e maldade, ateava sofrimento e ódio.

Uma cidade cheia de canais, com belos edifícios. Tenochtitlán? Ou seria Veneza? Reconheceu ali a mesma besta, apesar da máscara de carnaval. Ou seria uma máscara fúnebre? Também vens destruir esta cidade? Já o tentaram. Não destruíram a ideia ancestral destas gentes. Os invasores quase afogaram-se nas suas próprias lágrimas. Não eram lágrimas de crocodilo. Os crocodilos não são tão cruéis.

No Coliseu, abriam as portas para as feras atacarem os escravos na arena. O espetáculo de tortura e mortandade iria iniciar. O Imperador deliciava-se e deliciava o povo com aquelas barbaridades. Diziam-se civilizados e chamavam bárbaros a outros.

Sentou-se ao lado do Imperador. Cá estamos, outra vez. A minha vontade e a tua teima em ser cruel. Através dos tempos – nós que desconhecemos o tempo. Deu um beijo na face do Imperador. Um beijo de bondade, que surpreendeu o princeps. O beijo petrificou-lhe a face, e depois todo o rosto. O corpo reagiu, levantando-se, enquanto o seu peito e barriga transformavam-se em rocha. Por fim, todo o corpo foi afetado. Com espanto, a corte viu o Imperador cair no chão e estilhaçar-se em mil pedaços, que se transformaram em mil sementes.

Belas árvores nasceram.

Clemente

Tenho de ir. E foi. Nunca mais viram Clemente. No bairro apenas sabiam que Clemente havia ido, um dia, depois de dizer tenho de ir. Até havia uma expressão “desapareceu como Clemente”.

Anos depois, como se nada fosse, o padeiro reconheceu-o na fila do pão. Clemente, és tu! Clemente acenou com a cabeça, sem dizer nada. A notícia espalhou-se, Clemente estava de regresso. Todos queriam vê-lo, mas nem sempre era fácil. Clemente regressou à mesma casa em que vivera, no oitavo andar de um edifício sem elevador. Quando os visitantes chegavam à sua porta, Clemente deixava entrar. Sentavam-se no sofá empoeirado e perguntavam, porque foste embora?, por onde andaste, Clemente? Clemente ficava em silêncio. Às vezes ria-se, gargalhava, minutos sem fim, na presença das pessoas. Às vezes chorava – mas quando isso acontecia, demorava mais tempo a parar.

Ele havia conhecido Ema numa longa noite de um inverno branco. Amara-a desde o momento em que vira o seu sorriso. Agora, aventurava-se perto do seu jardim, onde, como num incêndio, deflagravam rosas vermelhas em todas as grades. Ele estava decidido. Ousaria ultrapassar os portões do casarão, chegaria à porta e falaria com ela. Calcorreou o caminho de pedras desenhado de forma elegante no relvado. O mesmo relvado por onde passara há anos, em sentido contrário. Parecia ter voltado no tempo. Bateu com a aldrava.

Ouviu, do lado de dentro, os passos dela, que abriu a porta e disse: Sabia que eras tu. Não mudaste o teu toque. O que fazes aqui? Deixaste-me. O que tens a dizer?

Clemente tentou pegar-lhe nas mãos. Ela não permitiu. A voz de uma criança ouviu-se dentro da casa. Ele olhou para ela, mudo. Ela devolveu-lhe o olhar, com ódio da sua triste covardia. Como se lhe desferisse um golpe cortante, Ema disse-lhe: tenho de ir.