A democracia mal aprendida. Mas quem a conhece?

No Público

“O país já está à beira de uma guerra civil”

Pelo nosso enviado JOSÉ MILHAZES, em Kiev

Quinta-feira, 25 de Novembro de 2004

O líder da oposição democrática na Ucrânia, Victor Iuschenko, rejeitou ontem os resultados oficiais da segunda volta das eleições presidenciais que dão a vitória a Victor Ianukovitch, o candidato do regime. Fez um apelo à greve geral e avisou os milhares de partidários concentrados há vários dias na Praça da Independência em Kiev que o país está à beira de um “conflito civil”.

Este começa bem!

No campo adversário, o Presidente cessante, Leonid Kutchma, que apoiou Ianukovitch, avisou também os apoiantes de Iuschenko que as suas manifestações equivalem a “uma tentativa de golpe de Estado”, e que uma guerra civil “pode tornar-se uma realidade”.

Este assina em baixo!

Apesar das denúncias, internas e internacionais, de irregularidades no escrutínio, a Comissão Central da Ucrânia declarou Ianukovitch vencedor, com 49,46 por cento dos votos, contra 45,66 por cento de Iuschenko. Dos 16 membros da Comissão, 14 assinaram o protocolo final. Os Estados Unidos, através do chefe da diplomacia, Colin Powell, já fizeram saber que “não consideram legítimos” os resultados anunciados. Exigiram uma “revisão completa” do processo, sob pena de “haver consequências” para as relações bilaterais. Também o Canadá, numa declaração da vice-primeira-ministra, Anne McLellan, rejeitou os resultados que “não reflectem a vontade verdadeira e democrática do povo ucraniano.”

O império ameaça!

Em Kiev, Victor Iuschenko declarou: “Não reconhecemos os resultados oficiais. (…) As minhas acções para combater o actual regime serão ainda mais consistentes e poderosas. Esta decisão [da Comissão Eleitoral] deixa a Ucrânia à beira de um conflito civil”.

Este corrobora!

Especificando o apelo de Iuschenko a uma “greve política total”, o líder do Partido Socialista Oleksandr Moroz, disse aos manifestantes em Kiev: “Vamos organizar cidadãos, vamos interromper as aulas nas escolas e universidades, vamos paralisar o trabalho nas empresas, vamos parar os transportes (…) e assim forçar as autoridades a pensar no que estão a fazer.” Iulia Timoshenko, a principal aliada de Iuschenko, acrescentou: “Vamos cercar todos os edifícios do Governo, bloquear as vias férreas, os aeroportos e as auto-estradas. Temos a séria intenção de tomar o poder nas nossas mãos (….) numa luta consistente que leve à destruição deste regime.”

Estes já tem o que fazer nos próximos tempos!

Timoshenko informou também que hoje a oposição vai recorer ao Supremo Tribunal, para protestar contra as fraudes eleitorais, e exortou os manifestantes a não abandonarem a praça central de Kiev. Iuschenko liderou a multidão, gritando: “Eles querem pôr-nos de joelhos, mas não vamos desistir”. Os apoiantes aplaudiram-no e gritaram: “Vergonha! Vergonha!”

Também digo: vergonha!

Apesar da demonstração de força de Iuschenko, o candidato declarado vencedor ofereceu-se para encetar negociações com o opositor. “Vamos procurar uma linguagem comum”, terá dito Ianukovitch, citado pela agência Interfax, de Moscovo. “A Ucrânia é a nossa terra e devemos ter a oportunidade de viver juntos o melhor possível.” Antes, emitira um comunicado onde se lia: “Só aceitarei os resultados das eleições presidenciais se me provarem, a mim e ao povo ucraniano, que eles são legítimos e credíveis, de acordo com as condições estabelecidas pela Constituição. (…) Não preciso de uma vitória fictícia, um resultado que provoque violência e vítimas. Nenhum cargo de autoridade, por muito importante que seja, vale uma única vida humana.”

Não sabia onde estava António Guterres e já descobri.

Em Kiev, os sinais de trânsito não funcionam e os duplos traços contínuos não são respeitados porque milhares de manifestantes continuam a atravessar o centro da cidade, tornando o trânsito um caos. Mas não se encontram muitos descontentes. As filas são provocadas pelos manifestantes que insistem em contestar a “fraude eleitoral”. Os automobilistas apenas apitam para saudar a multidão que desfila pelas ruas.

Pi-pi! Pi-pi!

Ontem, de manhã cedo, a Praça da Independência estava quase vazia. Com a neve a cair, os guardiões de Iuschenko aqueciam-se e descansavam nas centenas de tendas e barracas instaladas nas ruas vizinhas. No entanto, a pouco e pouco, vindas de todos os acessos, começaram a avançar colunas gigantescas de jovens. “Somos alunos da Universidade de Kiev e viemos apoiar o nosso Presidente”, disse-nos o estudante Alexei. “E as aulas?”, perguntámos. “Só voltaremos a estudar quando vencermos”, respondeu.

Até parece que estudam!

A praça rapidamente se encheu de gente . Para ajudar a suportar o frio, grupos de rock actuavam e apoiantes de Iuschenko discursavam. “Para apoiar o nosso Presidente, veio dos EUA Victor Klitchko, campeão do mundo de boxe”, anunciou um animador ao microfone, recebendo fortes aplausos. “Vim dizer-vos que o nosso Presidente é Iuschenko, e que o devemos apoiar”, declarou Klitchko.

Como? Dos EUA? Não queiram camaradas!

Produtos e bebidas quentes foram oferecidos pelos habitantes de Kiev aos manifestantes provenientes de várias regiões do país, principalmente da Ucrânia Ocidental. “Trouxe sandes, chá e roupas quentes”, disse a professora primária Svetlana. “Não trouxe mais, porque as possibilidades não permitem, mas temos de vencer”.

É preciso lutar!

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