de onde vim?

À beira do Lago Guaíba floresceu e floresce Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul. É habitada pelos gaúchos, povo que se revê mais nos pampas da América do Sul do que no Brasil. Diz-se, aliás, para fazer ironia, que um dos grandes escritores gaúchos é Jorge Luís Borges.
A distância de Porto Alegre a Lisboa é de 8800 quilômetros. Mas se o espaço geográfico conta, também conta o tempo. O percurso foi feito em 1988, há 25 anos. Eu vim daí: da Porto Alegre de 1988, uma cidade um pouco diferente da que existe hoje.
Regresso uma vez por ano às minhas origens. Tenho sorte. A cidade, sempre diferente e sempre igual, recebe-me com a mesma saudação: um abraço longo, um abraço de saudades, de tristeza pela distância, de alegria pela presença. A alegria é mais eficaz do que a tristeza: arranja sempre forma de predominar.
Sobre a minha Porto Alegre fala-se do chimarrão no Brique da Redenção, fala-se do rodízio de churrasco, dos gaúchos, da corrida ao fim de tarde no Parcão. Falam de uma cidade que é das mais equilibradas no termômetro das injustiças na desigualdade de distribuição de rendimentos do Brasil. É o que se fala.
Mas eu, quanto a Porto Alegre, não tenho hipótese e perco-me em lembranças. Os lugares não são só lugares. Todos eles são povoados pelos meus momentos, pela minha subjetividade, pelas minhas sensações, pelos meus sentimentos.
Assim, posso falar da noite porto-alegrense, do Bar do Beto, do Boteco do Natalício, do Bar Opinião. Pouco vale descrevê-los, se não colocar dentro deles as memórias dos chopps, dos risos, das gargalhadas, das músicas, dos concertos, dos encontros e reencontros com amigos nunca perdidos e sempre presentes, apesar da ausência.
Como explicar o Parque da Redenção, o pulmão da cidade, sem colocar lá os passeios de bicicleta com meus irmãos? Ou sem mencionar a correria com os amigos de escola? Ou sem lembrar de um cappuccino com a minha irmã, num dia de frio e de chuva no Café do Lago? E como descrevo o Mercado passando ao lado da salada de fruta com sorvete da Banca 40, bem de manhãzinha, com o meu irmão? Ou descrever a Lancheria do Parque, sem explicar tudo o que passei lá, desde os tempos de escola, depois saídas à noite, com um excelente filé à parmeggiana acompanhando?
Este é o lugar de onde vim: um lugar no mapa mundi, uma cidade bonita, mas principalmente um lugar de memórias e vivências.

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