Shiafzy

Sophie estava surpresa. Acordou a segurar uma pedra colorida, que nunca tinha visto. Atrasada, a arquivista da Câmara guardou-a na mesa-de-cabeceira e despachou-se para o trabalho.
Passou um dia complicado a pensar no enigma. Tinha vergonha de contar o que lhe sucedera. Seria um sonho? Estaria louca? Devia ser internada?
Regressada a casa, deparou-se com uma nota metida por baixo da porta: “Tens a pedra? Se sim, faz deste papel um avião e deita-o pela janela”. Sentia-se dentro de um filme. Seguiu as instruções.
Adormeceu tarde, a ver uma série que se passava em Veneza. Num sonho confuso, cochilava num ombro amigo, em uma gôndola que a levava num emaranhado de canais e desembarcava na Praça San Marco. Acordou com uma luz que saía das frestas da gaveta da mesinha. Abriu. A pedra brilhava, intensamente. Desesperou-se. Saiu porta afora e atirou-a para tão longe quanto podia. Aliviada, voltou a dormir tranquila, sem perturbações.
De manhã olhou para as suas mãos: a pedra não estava lá. Apressou-se. Tinha muito que fazer no arquivo. Centenas de pastas a esperavam. Cumpriu todas as suas tarefas, numa longa e monótona jornada.
Quando, ao fim do dia, girou a chave de casa, perspetivou uma noite igual às outras, sem sobressaltos. Queria deitar cedo para no dia seguinte mudar dezenas de livros do lugar. Pensou no turbilhão da noite anterior com uma incompreensível saudade.
A saudade durou breves instantes. Sobre a mesa estava a pedra colorida, presa num fio de prata, ao lado de uma garrafa de vinho, de um vestido branco e de uma carta:
Sophie,
Já te entreguei a pedra felicidade, a Shiafzy, e intrometi-me nos teus sonhos. Estiveste comigo numa gôndola, num lindo passeio. Entristeci-me ao ver-te atirar a Shiafzy pela janela, mas entendo que o novo cause medo.
Espero-te em Veneza. Coloca a pedra em teu pescoço, traja o vestido, bebe um copo do magnífico vinho veneziano que te trouxe e deixa-te levar.
Tenho uma festa no Rialto, gostava que me acompanhasses.
Beijos,
Francesco
No mês seguinte, um postal de Veneza chegou ao Arquivo Municipal, com apenas uma palavra: Addio.

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