Mi mayor secreto

Estava feliz o cantor Alberto Arranguiz. No meio de um concerto que ameaçava fracassar, o seu rosto brilhava. Os músicos que o acompanhavam estranhavam a situação.

Na linda sala Gran Rex, na mítica Calle Corrientes, Alberto apresentava o seu disco de milongas uruguaias, composto entre Montevideo e Colónia do Sacramento. Também tinha umas pequenas partes brasileiras, gravadas em Porto Alegre. Faltava um contributo argentino, mas Alberto não cruzava o Rio da Prata há 10 anos. Agora voltava a Buenos Aires, sua terra natal, trazendo a sua arte.

O concerto até iniciou bem, com “Milonga del pago viejo”, que mereceu muitos aplausos. No entanto, de repente, a sua estreia absoluta na Argentina começou a correr mal. Em “Bolero del costado” uma das cordas do virtuoso guitarrista Pablo del Cerron partiu-se. Em “Vida es mi amante” houve um repentino corte de luz. Um certo pânico correu pelos músicos quando a pele do tambor de Cristiano Serral rompeu-se em pleno “Instinto Guarani”, uma música sobre a destruição dos Sete Povos das Missões.

E foi justamente neste momento que Alberto começou a sorrir para a plateia. Ria satisfeito e descontraído. Apesar de “Milonga para mi hijo” ter sido tocada na perfeição e com muita intensidade, o resto do espetáculo soube a pouco. Alberto distraía-se, esquecia alguns refrões. Até mudou uma letra triste, transformando-a num tema alegre. Os músicos estavam chocados e o auditório estava desiludido.

Enquanto cantava “Mi mayor secreto” interrompeu a música e dirigiu-se ao anfiteatro, a irradiar alegria:

Caros amigos que vieram, peço desculpas e sei que haverá forma de compensar-vos. Eu certamente voltarei aqui. Tocando hoje, de regresso a Buenos Aires, recebi a maior das prendas. Meu filho, com quem me desentendi há 10 anos atrás, está na assistência. Fomos conversando, através de nossas miradas. E eu apenas quero ir para a Plaza Dorrego, beber uma Quilmes, comer uma fainá, ouvir Gardel ou o mais recente Tanghetto, falar sobre Borges, Cortazar ou mesmo sobre o Boca. Mas, principalmente, quero falar com o meu Juan e abraçá-lo muito. Obrigado a todos. Até breve.

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