a busca

Cada um de nós é feito de suas memórias. Nada mais, nada menos.

Lembro do maço de cigarros azul e branco do meu pai. Lembro do pátio de casa, da bananeira, da goiabeira. Recuperei algumas festas de aniversário, uma delas que tinha bonequinhos índios. Lembrei das minhas corridas pelo quintal! Algumas trilhas sonoras da minha infância voltaram a soar-me nos ouvidos.

Mas faltam-me memórias, faltam-me recordações. Coisas que todas as pessoas lembram-se: seus amigos, suas brincadeiras, seus familiares. De uma hora para a outra passei a ficar atormentado quando tenho de olhar para antigos álbuns de fotografia. Quem são aquelas pessoas? Quando dizem-me, surpreendo-me com o facto de serem familiares ou amigos próximos.

Perder a memória custa. Porém, o pior mesmo é perceber que ela foi-nos tirada. Seja por um acidente, seja por uma doença. No meu caso é especialmente dramático. Fui vítima do mais impressionante roubo: o roubo de memórias. Não foram todas roubadas. No entanto, penso que atingiu partes significativas da minha infância: a essência do que somos. Tenho dúvidas quanto ao alcance dos danos. A suprema ironia é que é impossível quantificar o tamanho do nosso próprio esquecimento.

O ladrão das minhas recordações não sabe que consegui identificá-lo. Fez mal o seu trabalho. Contou com o apagamento da minha consciência, mas esqueceu-se que quem tem amigos nunca é esquecido. Pude vê-lo captado na videovigilância do Café do Joseph.

Do que percebo, uma vez que não lembro do momento, o indivíduo meteu conversa comigo e em poucos minutos, enquanto fui buscar um cinzeiro, colocou algo em meu café. Conversamos cerca de três horas. Quando terminamos fiquei atónito, sem fala, e a minha sinistra companhia abandonou a mesa. A conta ficou por pagar.

Não lembro quando voltei a mim. Foi uma espécie de longo despertar, com alguns fogachos de memórias, que mais iam do que vinham.

Tracei prioridades imediatas. Tornei-me um obsessivo em matéria de recolha da história da minha infância. Minha companhia é um caderno preto onde aponto tudo. Vou no quinto volume em apenas dois meses. Às vezes uma memória puxa uma recordação que traz uma lembrança, de forma que as tardes de escrita ocasionalmente prolongam-se.

A outra prioridade é encontrar o ladrão de memórias. As imagens levaram-me a um nome: Paul Rechard, residente num pequeno palácio na Vila de Sintra.

É à frente da sua porta, com grades barrocas, que me encontro neste momento.

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