O caminho

Ficou um caminho por descobrir. Não esperava que, depois de a escalar completamente, chegasse ao sopé da temível Montanha Geribay, com esta ansiedade tão amarga. Veio a fama de ter sido o que mais alto chegou nos penhascos de Geribay. Mas, no fim dos aplausos, Jacques pensava: ficou um caminho por descobrir.

Ali estava ele. Via a rocha grande e passava por ela. Enfrentava o frio e o vento. Seguia o percurso por algumas horas e, à beira de desistir, chegava ao seu objetivo, tropeçando numa inscrição estranha. Quando começava a desvendá-la, no meio da neve incessante, acordava. Em sua cama, o único frio que poderia sentir estava do outro lado da janela.

Jacques era uma lenda viva. Recordista absoluto. Em cada conferência era ovacionado como um super-homem. Agradecia. Porém, quando olhava-se ao espelho, os seus olhos lembravam-no: ficou um caminho por descobrir.

Procurou os psicólogos mais capazes. O alívio era momentâneo. Bastava ver uma montanha, que a memória o triturava: ficou um caminho por descobrir.

Quando Jacques decidiu desafiar novamente Geribay uma onda de preocupação atingiu os seus mais próximos. Tinham razão. Todos os que subiam pela segunda vez os labirintos rochosos e gélidos de Geribay não regressavam. Nem Johnny Salton, nem Giulliano Rentulli voltaram. Lembras?, avisava o seu pai. Jacques não ouvia ninguém. Tinha um caminho por descobrir.

Em 4 de Maio de 1967, Jacques Greillard deu o primeiro passo da sua nova escalada. As fotos que perenizaram o momento mostram um Jacques satisfeitíssimo.

Finalmente estava mesmo ali. Dias depois de iniciar a subida, estava junto à pedra grande. Contornou-a. Começava o seu caminho! Tudo correspondia às paisagens dos seus sonhos. Inclusive a tempestade que se iniciara. Um impulso forte o impelia a prosseguir. Nenhuma dificuldade o detinha. A neve caía, intensa. Jacques limpava os seus óculos.

Com o passar das horas, o receio apoderou-se de Jacques. O alpinista começou a duvidar de suas capacidades. Todo aquele branco à sua volta! Estaria perdido? Chorou de tristeza, considerando-se um falhado, um miserável, com um caminho por descobrir. Ajoelhou-se desesperado e sentiu uma dor no joelho. Magoara-se em algo. Magoara-se numa inscrição! A inscrição do seu sonho!

Tentou decifrá-la, apesar da neve que lhe turvava a visão. Após muita luta, conseguiu lê-la.

Dizia: Jacques Greillard (1934-1967), o grande montanhista de Geribay, que fez todos os seus caminhos. Jacques sorriu, aliviado. Encontrou a sua paz e descansou para sempre.

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