Gargalhadas em Cannes

David chorava, consternado pela morte de seu pai, que tinha sido levado pelo seu coração. David perdera todas as suas referências, o seu melhor amigo, seu mentor e seu professor.

Assistia-se em Cannes ao novo filme de Sophie Rambaly. Era mais um monumento à reflexão existencial. A fraca condição humana, vulnerável a todas as espécies de provações, era plasmada numa película impiedosa. Era, claramente, o filme mais bem colocado para ganhar o grande prémio. Depois de embrenhar-se nas perdas de David, a realizadora focava o distante Doutor Ork, cardiologista. Este médico, friamente, empunhava um papel e entregava a David. O coração do seu pai faliu. Deve retirá-lo daqui em 24 horas. Procure uma funerária. Fale com a secretaria do hospital para tratar dos detalhes. Caso o seu pai tenha um plano de saúde, isso não custará tanto a pagar. Nem um “lamento”, nem uma outra palavra. David olhava, nem percebia muito bem o que o médico dizia.

Na plateia de Cannes, no meio de um silêncio sepulcral, ouviu-se um riso bem alto. Numa atmosfera de tristeza, de perda, tão induzida e trabalhada pelo filme, as gargalhadas surgiram como um ataque, como um profundo desrespeito aos espectadores. No início não se percebia de onde elas vinham. Mas, como prosseguiam, foi possível perceber a sua origem: o camarote principal. Foi com surpresa que todos viram Sophie Rambaly a rir-se efusivamente. As pessoas começaram a vaiá-la. Um fenómeno único desenrolava-se: a cineasta que proporcionava um espetáculo de altíssima qualidade, ria do filme. A aprovação do filme era dissonante com a reprovação da sua realizadora. Cannes estava virada do avesso.

Sophie, com dificuldade, parou de rir. No meio das injúrias, pediu um microfone para dirigir-se às pessoas.

Prezados amigos, sei que nada justifica o que ocorreu. Quebrei a atmosfera e o respeito que demonstram pelo meu filme. Ri-me por um motivo inesperado. O que fez a minha alegria despontar desta forma tão exagerada, foi lembrar de uma ironia feliz. O papel que este horrível médico tem na mão é, na verdade, um documento onde, perante uma suspeita de cancro, o resultado foi negativo.

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