Porteira fechada

Saí do carro e abri a porteira. A porteira de um sítio às vezes tem disto. Fica no meio de uma pequena estrada e apenas interrompe um caminho. A sua abertura nada desvenda, nada muda, o avanço é uma incógnita. É com base na fé que dizemos que estamos entrando em algum lugar. Mas, de facto, apenas abrimos uma porta.

Nas estantes de livros que sempre me acompanharam, habitava um livro. Porteira fechada, de Cyro Martins. Nunca o li, mas é como se tivesse. Faz parte de mim.

Seguimos pela estradinha, no Puma preto, levantando poeira. Uns metros mais à frente descendíamos, via-se o lago e estava ali a casa, com a piscina. Nadei nela, logo que aprendi a nadar. O meu pai, preocupado, um dia explicou-me o que era uma cãibra e ficou na ponta da piscina, enquanto eu nadava.

Em Ijuí também havia uma piscina e também havia jardins e hortas. Havia caquis chocolate e normais. Até no inverno nadei na piscina de Ijuí. Mesmo com a água suja.

No sítio da porteira que abri, os cavalos andavam em toda a parte, soltos. Eram uns dez. Queria lembrar os nomes, mas só lembro de um, o Comanche. Não sei se havia um Apache. Numa ocasião, tinha eu 4 ou 5 anos, um destes cavalos – que pena olvidar o nome – correu até mim e a minha irmã mais velha. Assustamo-nos. A Raquel pegou-me no colo e, vestidos e tudo, jogamo-nos para dentro da piscina. Foi inesquecível.

Havia um jacarézinho no lago, pelo menos a lenda. Tenho memória de andar sozinho de barco, numa segunda-feira em que as outras crianças foram para a escola. Acho tão ousada esta recordação que às vezes penso se terei sonhado. Mas não sonhei. Se não, teria sonhado as brincadeiras de “acampamento” em que não acampávamos, mas era como se fosse. Lembro de chegar à outra margem do lago, onde havia uma pitangueira. Havia lá pitangas.

No sítio também lembro de ter experimentado leite de vaca. Ou terá sido na fazenda do Rodrigo Borella? Onde seria a fazenda do Borella?

Eu fui ao sítio desde muito pequeno. Ficava em Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre. Pertencia à família Irion, meus primos em segundo grau. As lembranças deste lugar são de todos. Penso que foi vendido e tem a sua porteira fechada. Não sei quando foi a última vez que lá estive. Seguramente não sabia que estava a despedir-me.

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