Admirar

Uma cidade: Admirar. Fica depois daquelas montanhas que parecem intransponíveis. Um elétrico de cristais leva-nos até lá. Há também uma estrada que se abre e, em curvas e contracurvas, subidas muito íngremes e descidas pouco óbvias numa escalada. A três metros do fim do caminho, se anuncia: Admirar.

Um punhado de flores por Admirar, é o que tenho para dar. As esperanças desvanecem-se nas suas ruas principais. Foi o que ele disse. Assim. Venho de lá e tudo colapsa. Há um tempo queriam juntar-se e ajudar-se. Agora centram-se em dividir-se. Os extremistas saíram das suas tumbas húmidas, infectas e tomadas pelo bolor que os conserva no passado mais doentio.

Nas fronteiras, refugiados de guerra acotovelam-se junto ao arame farpado. De repente, os arames são as únicas esperanças de quem foge. Passar dificuldades, privações e provações, sentir-se discriminado, rejeitado e esquecido, é melhor do que perder a vida quando exércitos disputam recursos de territórios e poder, à lei da bala. Zirak leu num jornal que em Frirgard haverá um referendo para descumprir com o humanismo, para não aceitar refugiados. Mas a gente quer ir para este lugar tão mesquinho, pai? , dirá Nadiry, sua filha, antes de deitar-se com toda a família na tenda fria do campo que não é de concentração porque tem outro nome. Vamos para onde não houver guerra. Vamos para Admirar.

Ninguém avisou esta família que em Admirar quem tomou as rédeas desistiu também dos tratados e da humanidade. Desistiu até do seu povo. Nem para os seus, nem para os outros. Toda a ajuda é uma benesse, diz-se na tv e o povo repete, como numa reza, numa espécie de novilíngua do livro 1984, mas reportado a 2016. Toda a crítica é uma ameaça, outro chavão difundido.

O cheiro a alfazema do incenso, na cidade vizinha de Brisk, perfumava o ambiente de uma reunião de urgência. Não vamos deixar Admirar implodir sobre si própria.

Mas tudo foi-se fechando. O que tinha sido progresso era regresso. Em todos os lugares era assim. Esqueciam que no passado tinha havido luta por abertura, por direitos. De repente, repetindo os chavões da tv, já achavam que o Estado não devia prover ajudas sociais, que tudo era economia, o mérito era confundido com propriedade e heranças e pobreza com preguiça. Cortar financiamento é gerar riqueza. Educação é supérfluo, puna-se depois quem não tiver sucesso na sua auto-formação. Saúde é gasto, não fique doente. Refugiados, imigrantes, em Admirar o decreto era claro: terroristas. Espingardas em cima deles – nas pernas, se tiverem dúvidas.

Fechar é abrir. Piorar é melhorar. Regredir é progredir. Um assessor disse para os que mandavam agora em Admirar que tudo isso era muito Orwelliano. O que é isto?, seu chefe rosnou e o despediu. Saber é desconhecer. Refletir é criticar – toda a crítica é uma ameaça.

Em Brisk viam isso tudo. E sentiam também. Receberam os refugiados e os migrantes, inclusive os que saíam agora de Admirar, em busca de uma vida digna, longe de uma sociedade que, da noite para o dia, deixara de cuidar de uma parcela grande de cidadãos, dos pobres. Em Brisk iriam passar dificuldades para acolher a todos. Mas isso em Brisk era considerado totalmente irrelevante. Além de acreditarem na palavra solidariedade e igualdade, lembravam do quanto haviam sofrido no passado. De como os seus migrantes tinham penado nos outros países, de que uma guerra havia gerado milhares de refugiados e como tinham gostado de ser bem recebidos. E tinham orgulho no caminho que haviam trilhado, em direção à igualdade. Sabiam para onde iam, onde queriam chegar.

Perante os maiores retrocessos a única resposta é a luta pelo progresso e pela esperança. Resistiremos, apesar de tudo. Numa manhã, em Brisk, leu-se esta carta vinda de Admirar. Alguns dias mais tarde, uma semelhante viria de Frirgard.

Ainda existiam humanos entre os humanos.

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