O caderno de Joaquin

Observava pela janela do avião. Buenos Aires aproximava-se. San Telmo, Palermo, Retiro, o Obelisco, Plaza de Mayo. Os próximos dias eram de reencontro com o seu passado. Estava há muitos anos em Roma. Fazia vinte anos que não pisava o solo argentino.

“Filipe Corrientes, esteve aqui há tantos anos. Voltou?”, disse-lhe o guarda da fronteira. “Jamais estive longe. Estive aqui todos os dias”, respondeu Filipe. Do aeroporto pegou um táxi que o deixou perto de casa de amigos, nas proximidades do Caminito. Juan e Vera o esperavam. Já não tinham 19 anos, é verdade. Estavam mais velhos, mas não tinham muitas novidades para contar – viam-se regularmente na internet, através das redes sociais.

A noite foi regada com cervejas e bifes de chorizo com chimichurri. “Sinto-me de volta mas não chega. Tenho afazeres. Vamos saborear esta noite, a do regresso. Que a desilusão não arremate esta viagem”, falou Filipe, no intervalo das garfadas. O tango revestia a refeição, envolvia tudo.

Manhã portenha ensolarada. Filipe sentado numa esplanada, observa o mapa de Baires. Anotou no diário: vejo o mapa, as ruas, sinto-me a ler uma poesia cativante. Depois levanto a cabeça, vejo os edifícios, os ônibus, mas sobretudo as pessoas, e no que me encontro, na verdade, é numa serenata latino-americana e europeia.

Andou, circulou e chegou onde queria, inebriado com aquelas esquinas impossíveis, com aquelas quadras cheias de cafés e teatros. O tapete vermelho do Teatro Colon o esperava. Os vitrais de uma beleza inaudita, de tonalidades amarelas, castanhas, vermelhas e azuis iluminavam o espaço. “Toda esta beleza excede o permitido para as obras terrenas, não?” disse a um funcionário. “Procuro Maria do Rosário”, completou. “Rosarita? Está naquela sala. Entre ali”, respondeu Pompeu, segundo o que estava escrito no crachá.

Rosarita era uma senhora muito velhinha. Mirrada, magra, vestia-se de branco. “Rosarita, sou Filipe, o filho do seu filho Joaquin”. Os olhos de Rosarita encheram-se de luz. Filipe ouviu ela dizer “Às vezes eu consigo vê-lo, filho do meu filho”, mas parecia que ela tinha falado com os seus olhos. Filipe não percebeu se ela conseguia vê-lo a ele ou ao seu pai, mas não buscou esclarecimento. Chegou mais perto da avó e pegou-lhe a mão. Deu-lhe um beijo na face. “Estou à procura do apartamento”. “Fica na Recoleta, perto do Cemitério. Azcuénaga, 1956”, respondeu-lhe Rosário. Continuou: “a chave está na secretária, na primeira gaveta. Pensei que nunca mais vinhas. Vai, faz o que deves fazer. Ter trabalhado aqui permite que meus últimos dias sejam no meio dos espetáculos e das artes e não depositada num qualquer lar de terceira idade.” Filipe beijou novamente a avó. Não a abraçou porque teve medo que, ao apertá-la, o seu corpo se desmontasse no meio da sala. “Adorei vê-la”.

O edifício e as escadas eram como Rosarita. Pareciam desmoronar. O prédio estava devoluto. A porta da frente abriu-se com o simples fato de Filipe encostar a mão na maçaneta. A poeira da madeira espalhou-se e a entrada da casa tornou-se misteriosa. Filipe conhecia o apartamento e imiscuiu-se pelos corredores até ao quarto. O seu quarto. Pensativo, fitou a acomodação. Em uma fração de segundo o seu corpo ganhou um caráter mais ágil. Deu duas voltas ao quarto e estancou. Tirou um canivete do bolso e o cravou no soalho. Recortou uma pequena parte do chão, em forma de quadrado, e a arrancou. Do buraco feito retirou um diário, com um pequeno cadeado. Com a chave que Rosarita lhe deu, acedeu aos segredos do, como dizia na capa, Caderno de Joaquin.

“Pai, desculpa entrar na tua escrita sigilosa, mas preciso entender porque fomos embora de Buenos Aires. A vó disse-me que não me podia contar, que era assunto teu. Sugeriu que lesse o teu diário secreto, que enterraste na nossa casa”. Conversava com o seu pai muitas vezes antes de deitar, mesmo depois de sua morte, mas nunca havia dado justificações a um morto. Começou a leitura do diário, ali mesmo, perto da janela da sua infância.

Ouviu um barulho no quarto de seus pais. Desvalorizou o ruído. “Ratos”, suspirou. O ruído transformou-se em passos que vinham do corredor, até pararem à sua porta. “Desculpa, mas ratos não. Onde estão? Vamos matá-los!”, disse o seu pai, à sua frente. Filipe não sabia o que fazer, o que dizer. “Meu pai!” desembrulhou a língua. “Filho, já ouvi teu pedido de desculpas. Prefiro que não leias os meus outros segredos, por isso estou aqui, para contar-te a razão da nossa saída de Buenos Aires. A tua avó veio cá na semana passada, rezou pelos cantos e disse-me que virias. Senta-te no chão comigo, porque é demorado.”

Sentaram-se os dois, o filho não acreditava que estava à conversa com seu pai, que falecera com um ataque cardíaco, levando inúmeras histórias consigo.

“Filho, antes de tudo, esclarece-me isso dos ratos nesta casa. Viste algum? Que situação estranha!”

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