Nona aventura de escrita

6º lugar (entre 207 concorrentes). os pontos acumulados foram 439 (nas outras aventuras foram 429, 430, 435, 439, 431, 427, 423 e 419). o primeiro classificado ficou com 451 pontos.

é interessante notar que com esta mesma pontuação venci um dos campeonatos.

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O envelope

O envelope estava fechado. Lacrado, com um selo em cera. Como remetente apresentava Serviços Administrativos da Ilha – Praça Grande, n.º 1 – Ilha Inquestionável.

Paul estava impressionado ao ver o seu nome como destinatário. Na noite anterior havia feito uma pesquisa na internet sobre a Ilha Inquestionável. Sobre a sua existência ou não. Nada de concreto havia, a não ser artigos especulativos. Mas hoje recebia esta carta, com esta origem. Estaria um pirata informático a vigiar-lhe o computador?

Outro detalhe era o de que o envelope, em sublinhado vermelho, dizia: só desfaça o selo num local com muito espaço! Com uma chamada de atenção tão definitiva, Paul estava receoso. O que um envelope podia conter que fosse necessário aquele alerta? Obedeceria ao aviso.

Paul sabia o lugar para onde deveria ir. Sentou-se em um banquinho do Parque Eduardo VII e, com a chave da casa, desfez o lacre. Por alguns segundos, questionou-se sobre o que haveria de especial naquele envelope, naquele papel azulado. Como se faz com qualquer carta, pegou nela para lê-la. Quase de imediato, o documento saltou-lhe das mãos.

Caído no chão, o papel desdobrava-se, multiplicava-se, potenciava-se, espalhava-se rapidamente. Algumas pessoas, entretanto, começavam a ver aquele movimento diferente acontecer. Paul perguntava-se sobre onde aquilo iria parar. Parecia ser uma caixa de Pandora em modelo de correios.

O processo interrompeu-se, sozinho, enquanto Paul teclava o 112 no telemóvel.

Curiosos juntaram-se. Muitos aplaudiram, pensando ser um truque de magia. Paul não olhava para as pessoas. Estava concentrado naquele enorme documento, ou cartaz, ou papel, que saíra do envelope. Era grande como um outdoor.

Enquanto Paul tentava compreender o conjunto, uma criança, numa das pontas, diria senhor, está aqui escrito: Mapa Completo da Ilha Inquestionável.

Nevetsky, ele próprio

Cheguei e o ambiente estava à meia-luz. Na rua, o frio afugentava a todos. As pessoas curvavam-se enregeladas. Mas ali dentro, naquele pequeno bar, estava agradável. Almofadas de diversas cores espalhavam-se pelo chão. Ele de certeza que não estaria ali sentado. Nevetsky ocupava uma das mesas. As velas iluminavam os tampos vermelhos.

Um segundo antes de eu apresentar-me, ele foi direto ao assunto. Olá Paul. Sei o que quer de mim. Quer uma história! Não sei se tenho alguma para lhe oferecer. Morri há muito tempo. As histórias da minha passagem por esta terra estão enterradas no cemitério. Ou melhor, não sei se estão, porque estou aqui… É difícil morrer, na verdade. Não porque não seja fácil eu morrer… Já morri algumas vezes… Talvez vezes demais… O problema é que é difícil matar esta história, ou estas histórias de ressurreição. De maneira que nem sei bem se estou morto ou vivo.

Paul ficou estupefacto. Era mesmo Nevetsky, o velho morto-vivo. Um morto-vivo bonito, diga-se. Nada daqueles zombies dos filmes e da televisão.

Ele continuou: Sei o que está a pensar. Olho para o seu nariz, a maneira como ele está a tremelicar, e leio os seus pensamentos. Sim, não sou um daqueles seres apodrecidos. Não somos assim. Não sou assim. Sente-se e beba algo. Não beba é aquela bebida vermelha ali. No passado, eu deixava as pessoas beberem. Depois comecei a ficar com pena. Não levavam a bem transformarem-se em seres cheios de sabedoria, como eu. Quer falar do quê propriamente? Isso é que me está a ultrapassar. O que pode querer de mim?

O quanto eu gostava de filmar aquele momento! O velho e lendário Nevetsky à minha frente, naquele bar. Ele, que o tempo cismava em conservar, achava que não tinha nada para contar!

Famílias

Joseph escrevia com o seu filho, Ismael, deitado no pé da cama. Madalena cantava com a sua filha, Mafalda, a caminhar pelo palco. Madalena ajudava Joseph nos seus livros. Acrescentava melodia e ritmo aos textos. Joseph contribuía com as rimas das canções de Madalena. Reforçava a poesia das suas letras. As crianças adoravam os seus pais. Gostavam de estar metidos naqueles universos todos. Dependendo do livro que o pai escrevia, viviam algo diferente. Dependendo das músicas que a mãe cantava, experienciavam um sentimento diverso. Era um mundo coeso aquele. Coeso numa dimensão diferente das que as famílias conhecem. Um mundo de portas e janelas abertas para jardins infinitos, variados, inesgotáveis.

Um dia Joseph e Madalena voltaram preocupados de uma reunião de pais. Perceberam que os outros meninos e as outras meninas não viviam aquilo que os seus filhos viviam. Madalena, eles vivem muitas abstrações, têm acesso a demasiadas artes, ficções. Não saberão viver a realidade. Ouviste a mensagem da educadora, certo?

Os filhos começaram a aprender novas competências. Aprenderam o que era conduzir um carro, como se construía uma casa, como se usava um telefone ou um computador. Os filhos não sentiram grande diferença, guardavam aquilo que lhes era oferecido.

Diferença sim, sentiam as pessoas. Quando Ismael, já adulto, levava alguém no seu automóvel, não era uma viagem convencional que as pessoas faziam. É um verdadeiro conto fantástico o que acontece, diria um dos seus amigos. Visitar Mafalda era também delirante – palavra escolhida por uma sua amiga – entramos numa pequena casinha, vista de fora, e lá dentro o espaço é gigantesco: um castelo medieval, adornado com as esculturas mais espetaculares.

Nunca vi na vida dos nossos filhos a influência das nossas artes, dirá Joseph a Madalena, que pensará este velho cegueta não é capaz de ver nada.

A fazenda

Os pinheiros dominavam toda a área frontal da fazenda. Parecia uma casa de sonho. Os visitantes que chegavam diziam aos senhores: casa linda! Lugar fantástico! Mas eu lembro bem. Apesar da minha tenra idade, eu conseguia perceber que havia trabalhos mais duros do que outros e patrões com melhor ou pior índole. Havia muito que fazer ali – é verdade. Gado, plantações, tecelagem, olaria. E nós dávamos tudo o que tínhamos. Houve uma fase em que até conseguíamos ter gosto no que fazíamos. Como era possível? Acreditávamos que os senhores iriam premiar a nossa dedicação.

Isto foi até ao dia da crise – o dia em que o primo Vicente revoltou-se porque não lhe serviram nem um pingo de arroz na tigela. Ele tinha passado o dia carregando sacos enormes de arroz e pediu um punhado. O capataz avisou que só havia couve e que se ele pedisse aos senhores, o patrão traria o chicote de certeza. O Vicente indignou-se! Só queria uma colher de arroz! Neste dia vimos nosso dono pela primeira vez. A mão dele vinha adornada com um chicote, que ficou vermelho de sangue num instante. Vicente ficou estirado na terra, abandonado, e nós fomos obrigados a deixá-lo assim.

Nesta noite, minha mãe sentou-se junto de mim e abraçou-me, coisa que ela nunca fazia. Disse-me filha, estes brancos tratam-nos assim, mas na cidade falam que em breve tudo vai mudar. Vão aprovar uma lei que nos vai libertar, que vai definir que somos todos pessoas. O tempo desta gente má vai acabar. Daqui para a frente, a cada noite vou contar-te uma história sobre liberdade, para estares pronta para ela.

Adormeci, preocupada com Vicente, mas ansiosa para que a noite seguinte chegasse e minha mãe começasse a contar-me o que era ser livre.

A tempestade

Entrou em casa e surpreendeu-se. Ofélia viu seu pai, Arnaldo, a chorar. Chorava compulsivamente. Correu a acudi-lo. O que se teria passado? Já o vira chorar daquela forma quando a sua mãe, Júlia, falecera, há anos, num dia de tempestade. Abraçou Arnaldo com força. Trovejava e ventava muito. Pela janela Ofélia via as árvores abanarem, flexíveis e resistentes ao vento. Pai, o que se passa? Filha, a tua mãe morreu!, respondeu-lhe seu pai. Pai, a mãe morreu há muitos anos. Arnaldo agarrou-lhe as mãos com força. Filha, ela morreu.

O pai estava numa das suas crises. Tivera duas iguais no verão passado. Uma das vezes até entrou mar adentro para dar a notícia aos peixes. Pai, a mãe faleceu há cinco anos. Lembras? Arnaldo, com os olhos postos no horizonte, prosseguia no seu pranto. Agora abria a janela e gritava Júlia, morreste! A chuva encharcava os livros da finada Júlia, que estavam numa prateleira próxima ao beiral da janela. Ofélia estava desesperada. Pai, calma! Vais molhar os livros da mãe! Não quero saber!, respondia Arnaldo, descontrolado.

No meio daquela confusão a campainha tocou. Ofélia abriu a porta e ficou estupefacta. Sua mãe entrava pela casa. Deu um beijo na filha e seguiu imediatamente até Arnaldo, que parou de chorar. Meu homem querido, não aguentei mais. Pensava vir aqui só para te contrariar. Mas não me deixavam, no lugar onde estou. No entanto, quando molhaste os livros que eu mais gostava, os anjos permitiram que descesse. Vá, guarda os livros e aproveitemos. Tenho até à tempestade terminar. 
Arnaldo sorriu e abraçou-a: que bom que vieste. Eu não sabia o que mais havia de inventar. Anda tomar o teu chá preferido.

Ofélia secou os livros e voltou a pô-los na prateleira perto da janela. Que viessem muitas tempestades.