A tempestade

Fez o que tinha a fazer: chaveou a porta, trancou janelas, organizou os víveres. Peças de louça, mobiliário frágil, colocou no chão. Carregou telemóveis. Deixou as velas prontas. E havia a velha espingarda do seu avô. Não serviria para nada, mas mesmo assim a carregou.

Reviu os passos, tomou notas e depois foi para o seu posto. Por uma pequena fresta havia passado uma rede e por outra fenda atravessou um aspirador para que, durante a passagem da tempestade de palavras, pudesse tirar algumas frases, alguns versos, ou mesmo livros inteiros, para si e para quem quisesse ler também.

Tal como as previsões meteorológicas, astrológicas e literárias haviam anunciado, aos dezoito segundos, dos dezoito minutos, das dezoito horas, levantou-se no horizonte a poeira das palavras, a trovoada das letras, o furacão dos textos.

Enquanto o espectro escurecido de letras aproximava-se, ele ia lendo as diversas mensagens que a tempestade ia constituindo, a força que tinham aquelas orações criadas por um tufão, aleatoriamente. Algumas frases pareciam dirigidas para si, como se a ventania quisesse comunicar consigo.

Quando a tempestade chegou à sua casa, parecia que tudo iria ruir. Por sua caixa de correio entravam ameaças literais de que a sua casa ia desabar, mensagens que conclamavam os livros do interior da casa à rebeldia. Este pormenor havia sido acautelado. Sua biblioteca havia sido transferida para a cave.

Esperar passar.  A tarde e a noite seriam assim.

Pela manhã a rede e o aspirador estavam cheios de versos e livros. No meio de todos eles, um se destacava, com capa dourada. Ele abriu, folheou e surpreendeu-se com a dedicatória: “Para ti, que pacientemente esperaste que as palavras certas chegassem, que venceste a tempestade, dedico esta capa e algumas frases iniciais, que irão inspirar-te até ao fim deste livro – a tua obra”.

Assim seria.

Algo

Amor. Benjamin acordara e esta palavra aguardava por si no espelho da casa de banho. Quem poderia ter entrado no quarto de hotel? A porta estava chaveada.

Antes do pequeno-almoço tentou explicar a uma camareira o que se passara, num português a tentar ser italiano. A resposta foi: “o pequeno-almoço está incluído na estadia”. O capuccino que tomou teve gosto de enigma. Mas teve de alhear-se para poder aproveitar a cidade das mil igrejas. Palatino, Aventino, tantas colinas, tantas pessoas e Benjamin sozinho. No Teatro de Marcelo lembrou-se da primeira vez que o viu, pensando que era o Coliseu. As ingenuidades adocicam os momentos e ficam para sempre. Fotografou tudo do seu regresso à capital italiana, menos o escorregão que deu nas escadarias da Praça de Espanha, que, potencialmente, o poderia ter morto.

Noite alta no Hotel, acordou assustado e foi verificar o espelho, consultá-lo. Sentiu-se como Grimilde, a bruxa de Branca de Neve – havia de partilhar isso com seu analista. Na manhã seguinte foi à Fontana di Trevi mandar dois euros e pedir em troca qualquer coisa, “algo” que o fizesse acreditar. Durou pouco o delírio, desfeito por um senhor quase disfarçado que, com uma pequena vareta, açambarcava moedas depositadas no chafariz. Benjamin confrontou-o e o senhor respondeu: “o que pediu? Solicite-me que eu próprio me encarrego”. Benjamin nem acreditava na sua boca, a proferir as palavras, “quero algo”, pediu. Voltou para o hotel envergonhado, desejoso de ir embora.

Jantava peru estufado com batatas cozidas. “Professor Benjamin, posso sentar-me consigo? Sou Clara, lembra-se da última conferência?”. Falaram toda a noite, saíram pelas ruas daquela cidade furacão.

Na madrugada, tocou o telefone do quarto. Clara não acordou quando Benjamin atendeu. Do outro lado disseram: “o espelho do seu quarto disse-me o “algo” que precisava. Benvenuto a Roma”.

Onde os terremotos das palavras brotam

– O tempo das flores passou, mas tu ainda estás aqui.
– Não, não estou. Estou onde os terremotos das palavras brotam. Talvez depois regresse.
– Estás aqui. Eu estou a ver-te, inteira. Com os teus gestos acertados, conseguintes.
– Acertados, lógicos, lá vem a parvoíce do fazer sentido. Não aprendes. Não aprendes?
– Aprender faria sentido, seria lógico. Estás a transformar-te numa enorme contradição.
– Uma contradição com tradição. Percebeste?
– Não desconverses. Estás aqui. Fora do tempo das flores, fora das leis. De que terremotos falavas?
– Os terremotos das palavras. Vêm a caminho, inúmeros. Não terás tempo para ler tudo. Aparecem todos ao mesmo tempo. Aconselho-te que escolhas algum, logo à partida. Se hesitas, se ficas a olhar, a sensação de perda a seguir é avassaladora, perturbadora. Ficas sem nada.
– Como sabes?
– Já passei por isto. Não consigo explicar. Fogem-me as palavras – todas querem juntar-se ao grande sismo.
– Lá estás tu sem fazer sentido.
– Lá estás tu, contido. Tens esta capa da razão a toldar-te os pensamentos. Estás preso nesta tua gruta. Tenta sair dela, antes do terremoto. O teto pode colapsar em cima de ti, com o peso das letras.
– Como posso proteger-me? Assustas-me.
– Não tenho qualquer dúvida que para defender-se de um acontecimento desta envergadura há uma fórmula. Tens de expor-te, sair da caverna. Agarrar algumas palavras, poucas. Abraças-te a elas com toda a força e deixas o turbilhão passar.
– Como escolho, ao calhas?
– Ao calhas aparecerão as únicas palavras passíveis de deixar-se encontrar. O tempo das flores já passou.
– E tu continuas aqui. Desencantada.
– Não vou recomeçar. Nem direi encantada.
– Sempre a desconversar.
– Sai da caverna. As nuvens de palavras estão a chegar. Vou para o olho do furacão. Anda comigo.

Blue Lagoon

“Mateus, estás hospitalizado na ala psiquiátrica intensiva. Lamento informar-te, mas tudo isto que julgas que possuis, a tua carreira inigualável como ator, a tua família atual, a biblioteca gigante na tua casa, com uma varanda que abre para o mar – tudo isto não existe. Ou melhor existe, de certa forma criado por este comprimido aqui na minha mão, o Blue Lagoon”.

Mateus olhava para o seu secretário pessoal, sentado na sala espaçosa de sua casa, e estava espantado. “Sei que estás a inventar Jaime, porque até citas o meu coquetel preferido, o Blue Lagoon”, responderia, seguro de si, Mateus.

“É melhor tratar-me daqui para a frente como Doutor Jaime, Mateus. Responda-me, porque julga que gosta de uma bebida chamada Blue Lagoon e que a bebe todas as noites, às vinte e uma horas em ponto? É exatamente à hora que administro este comprimido mágico, que te deu isto tudo”.

Mateus olhava para o seu assistente. Não sabia se devia rir ou despedi-lo com a brincadeira. “Não faz sentido Jaime. Se fosse isso, porque me estarias contando?”, retorquiu Mateus.

“Precisamente, sabia que chegaríamos aqui, Mateus. O Blue Lagoon será descontinuado. Ele é tão forte, tão eficaz, que, dando conforto aos doentes que o usam, retira-lhes totalmente a consciência do seu mundo original. Mas nem tudo são trevas. A sua família verdadeira o acompanhará de perto no seu reingresso.”

“Balelas Jaime! Está despedido! Suma!”, gritou Mateus. “Percebo que seja difícil aceitar, mas eu não desistirei de ti”, respondeu Jaime, indo embora.

Nesta noite, sem Jaime para o preparar, Mateus não bebeu o seu coquetel Blue Lagoon. Ao deitar estranhou deixar de ouvir o barulho das ondas, ao longe. E, antes de pegar no sono, sentiu o cheiro leve do amoníaco, odor que lhe lembrava um quarto de hospital.

Eurico e Rosana

O preconceito de amar, de entregar-se, de dar, de ver o outro. O melhor dos preconceitos, que não exclui, mas antes inclui, convida, oferece.

O amor é exigente. Oferecemos tudo o que temos, recebemos todo o melhor.

Obcecado com estas palavras Eurico irá ter com Rosana. Um bouquet de rosas numa mão, o melhor perfume, um voucher para o melhor concerto e a reserva para uma mesa de um restaurante com vista para o vale mais lindo da cidade. Irá pedir Rosana em casamento. Véu e grinalda, alianças, padre, missa e copo-d’água. Grande festa.

Rosana chegará para o encontro de calças rasgadas, t-shirt velha. Estranhará as rosas, detestará o concerto, pedirá para ir comer um hambúrguer. Quando Eurico pedir a sua mão, dirá que precisa de tempo pensar.

Debaixo do céu estrelado, dentro do carro, em Monsanto, bebendo uma coca-cola com algumas pedras de gelo e terminando as últimas batatas, Rosana olhará para Eurico. “Eurico eu te amo. Mas isto de casar incluirá Deus na nossa relação. Não quero um amor a três. Quero-te para mim. Se for para sermos mais, que seja junto com os nossos filhos”.

Eurico pensou naquilo. Era o oposto do que ele pensava, do que ele sentia. Tudo para ele era um rótulo. Mas tudo para ele era também Rosana. Com ela descobrira um novo mundo. Tinha sido uma revolução para si. Os outros pouco contavam, desapareceram do mapa. Contava ela.

Para ele o preconceito do amor era este. Um mundo feito à medida de duas pessoas. Um universo habitado por elas, onde a única soberania existente regia-se pela monarquia absolutista de amar, aceitar, valorizar. Ela era, é, e seria, para sempre, o seu tudo. O seu começo, meio e fim.

O tufão

A igreja branca ao fundo da paisagem plana e plena de verdes, amarelos e castanhos claros. Um abacateiro cheio de fruta madura, verde escura. Um poema era sobre o passado. O muro de uma casa nova: amarelo vivo nas paredes. Maçanetas fortes na janela. A porta de madeira, maciça, protegendo.

A igreja escurecida ao fundo da paisagem acinzentada. Uma árvore despojada de frutos e de folhas. O outro poema falava de futuro. O amarelo mortiço, quase branco, da parede que ruiu ali ao fundo. As janelas têm os vidros partidos, os acabamentos dilacerados. A porta não existe. O maciço é uma inexistência, o espaço vazio que ela ocupava.

Um poema para o passado. Outro para o futuro. “Onde fica o presente?”, perguntar-se-ia Romero. Fechava uma porta pesada, dava a volta a uma chave na fechadura barulhenta, mas funcional. O vendaval estava longe, ouvia nas notícias da radio. Sentia-se seguro na sua casa amarelada.

Chegaram umas gotas, batendo contra os vidros. O vento encanava na chaminé e parecia um suspiro queixoso, da realidade em mudança. A porta sólida não se mexia e as paredes ofereciam-se à luta, ao furacão que vinha pela pradaria que parecia ondular-se como o mar.

Romero apagou o fogo da lareira, para o fumo não voltar para dentro de casa, com o exterior tomado pela tormenta. Tranquilamente dirigiu-se para a mesa mais afastada das janelas. Ligou uma pequena vela, pegou na pena, na tinta e no papel. Chamou para junto de seus pés o cão, que mirava desconfiado para a tempestade e estava assustado com o sino da Igreja, que havia anos que não tocava.

Agora, Romero e a atmosfera, iriam escrever o terceiro poema. O poema épico do presente. O poema onde Romero enfrentava e vencia o tufão dos tufões.