Nona aventura de escrita

6º lugar (entre 207 concorrentes). os pontos acumulados foram 439 (nas outras aventuras foram 429, 430, 435, 439, 431, 427, 423 e 419). o primeiro classificado ficou com 451 pontos.

é interessante notar que com esta mesma pontuação venci um dos campeonatos.

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Em tempo e fora de tempo

Em tempo, aviso que as Amoras foram publicadas na oitava edição da Revista Literalivre.

Fora de tempo, mas ainda em tempo, lembro que, há mais ou menos um mês, partilhava uma carta de amor, do Abdel à Raissa, do outro lado do Mar Mediterrâneo, na Antologia Três Quartos de Um Amor.

Não chegar

Antes de chegar tentar ir a uma livraria e ela estar fechada, como previsto aliás. O horário está na porta. Ir a um café e entrar. Sair logo a seguir, sem pedir nada, só porque apetece. Querer o café seguinte, a porta ao lado, sucessivamente. Procurar encontrar e encetar uma nova procura. Fazer render a rua porque afinal o dia está sem nuvens. Esticar o céu e o sol e mesmo este friozinho de inverno. E depois chega-se. Ou não.

O envelope

O envelope estava fechado. Lacrado, com um selo em cera. Como remetente apresentava Serviços Administrativos da Ilha – Praça Grande, n.º 1 – Ilha Inquestionável.

Paul estava impressionado ao ver o seu nome como destinatário. Na noite anterior havia feito uma pesquisa na internet sobre a Ilha Inquestionável. Sobre a sua existência ou não. Nada de concreto havia, a não ser artigos especulativos. Mas hoje recebia esta carta, com esta origem. Estaria um pirata informático a vigiar-lhe o computador?

Outro detalhe era o de que o envelope, em sublinhado vermelho, dizia: só desfaça o selo num local com muito espaço! Com uma chamada de atenção tão definitiva, Paul estava receoso. O que um envelope podia conter que fosse necessário aquele alerta? Obedeceria ao aviso.

Paul sabia o lugar para onde deveria ir. Sentou-se em um banquinho do Parque Eduardo VII e, com a chave da casa, desfez o lacre. Por alguns segundos, questionou-se sobre o que haveria de especial naquele envelope, naquele papel azulado. Como se faz com qualquer carta, pegou nela para lê-la. Quase de imediato, o documento saltou-lhe das mãos.

Caído no chão, o papel desdobrava-se, multiplicava-se, potenciava-se, espalhava-se rapidamente. Algumas pessoas, entretanto, começavam a ver aquele movimento diferente acontecer. Paul perguntava-se sobre onde aquilo iria parar. Parecia ser uma caixa de Pandora em modelo de correios.

O processo interrompeu-se, sozinho, enquanto Paul teclava o 112 no telemóvel.

Curiosos juntaram-se. Muitos aplaudiram, pensando ser um truque de magia. Paul não olhava para as pessoas. Estava concentrado naquele enorme documento, ou cartaz, ou papel, que saíra do envelope. Era grande como um outdoor.

Enquanto Paul tentava compreender o conjunto, uma criança, numa das pontas, diria senhor, está aqui escrito: Mapa Completo da Ilha Inquestionável.

Pavões e búzios

Os pavões entraram de novo pelo patamar. Caminharam entre o banco (o banco de notas – não o banco de sentar) e o refeitório (naquele momento fechado – um refeitório repleto de pratos vazios, se é que estavam lá os pratos. Não conheço os procedimentos internos). Os pavões são menos pavões do que muitos humanos, veio a frase pelo ar. Era uma resposta ou todo um manifesto. Não foram os pavões que falaram, ninguém falou. Os pavões falam de forma clara, sem frases como esta. Os pavões dariam nome aos bois, também para provocar os animais cornudos, claro. Os pavões não abriram as penas, passearam-se quase em recolhimento. Disseram algumas coisas entre si, rasgos imperceptíveis da sua própria racionalidade. Há humanos menos racionais. Aconteceu – ou desaconteceu – nesta primeira meia hora solto depois de muito tempo sem parar para nada. Semanas. Ontem disseram-me que só penso em papéis – foram os búzios. Búzios é também aquela praia no Brasil. Gostava de ir um dia conhecer.  O que os pavões não falam os búzios sussuram? Nunca iremos perceber.

Nevetsky, ele próprio

Cheguei e o ambiente estava à meia-luz. Na rua, o frio afugentava a todos. As pessoas curvavam-se enregeladas. Mas ali dentro, naquele pequeno bar, estava agradável. Almofadas de diversas cores espalhavam-se pelo chão. Ele de certeza que não estaria ali sentado. Nevetsky ocupava uma das mesas. As velas iluminavam os tampos vermelhos.

Um segundo antes de eu apresentar-me, ele foi direto ao assunto. Olá Paul. Sei o que quer de mim. Quer uma história! Não sei se tenho alguma para lhe oferecer. Morri há muito tempo. As histórias da minha passagem por esta terra estão enterradas no cemitério. Ou melhor, não sei se estão, porque estou aqui… É difícil morrer, na verdade. Não porque não seja fácil eu morrer… Já morri algumas vezes… Talvez vezes demais… O problema é que é difícil matar esta história, ou estas histórias de ressurreição. De maneira que nem sei bem se estou morto ou vivo.

Paul ficou estupefacto. Era mesmo Nevetsky, o velho morto-vivo. Um morto-vivo bonito, diga-se. Nada daqueles zombies dos filmes e da televisão.

Ele continuou: Sei o que está a pensar. Olho para o seu nariz, a maneira como ele está a tremelicar, e leio os seus pensamentos. Sim, não sou um daqueles seres apodrecidos. Não somos assim. Não sou assim. Sente-se e beba algo. Não beba é aquela bebida vermelha ali. No passado, eu deixava as pessoas beberem. Depois comecei a ficar com pena. Não levavam a bem transformarem-se em seres cheios de sabedoria, como eu. Quer falar do quê propriamente? Isso é que me está a ultrapassar. O que pode querer de mim?

O quanto eu gostava de filmar aquele momento! O velho e lendário Nevetsky à minha frente, naquele bar. Ele, que o tempo cismava em conservar, achava que não tinha nada para contar!