Sonhou ser Fernando Pessoa

Aqui vai um primeiro post nesta rede social. As minhas primeiras linhas na realidade virtual. Dizem-me que será diferente ter amigos eletrónicos. A verdade é que, gostando dos novos que farei, até já tenho bastantes, incluindo os meus mais fiéis: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Bernardo Soares e Ricardo Reis. Do Facebook talvez perceba o meu querido Alexander Search, por ser inglês. Mas se ele pedir para que eu lhe crie um perfil, penso que não o farei, para não ter de me desdobrar em outras tarefas para com os meus heterónimos. Imagino as horas que ficaria aqui, gerindo contas alheias pertencentes a mim próprio. Dizem, inclusive que isto é uma má prática na internet – poderia parecer que eram falsos perfis. Seriam falsos? Ou simplesmente seriam dos meus outros eus, ou os meus amigos imaginários? Fica a pergunta decisiva: os amigos virtuais não são também imaginários?

O Facebook abre novas possibilidades. Além dos queridos leitores poderem encontrar-me no Chiado, no café “A Brasileira”, convido-vos à leitura dos meus escritos aqui na minha página, no singular – e não nas páginas dos meus livros, no plural. Veremos se meus poemas irão resultar tão bem aqui como nos guardanapos de papel que uso tantas vezes como bloco de notas.

Por agora coloco um ponto final neste texto carregado de inícios. Perder-me neste computador, na internet, nesta falsa janela para o mundo, poderia ser fatal. Conto ser cuidadoso com os minutos gastos, para alimentar menos um possível vício. O pior nem seria este enredar num mundo que dizem ser uma teia em www. O pior seria virar completamente as costas à vida real, ao verdadeiro abraço de um amigo. O mais terrível seria perder, por mais de cinco minutos, a mais majestosa de todas as belezas: a cidade de Lisboa.

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O regresso

Apresentou-se na festa com o fato cinzento impecável. Ninguém esperava por ele, como é óbvio. Muitos benziam-se. Ele, dado como morto, ressurgia, vindo não se sabe de onde.

O tom das pessoas para com a viúva modificou-se. O lamento pelo desaparecimento recente do marido esfumou-se. As frases gastas, traduzidas em “como gostaríamos que o Lionel estivesse aqui”, transformaram-se em “como é possível que Lionel esteja aqui?”. Ela não tinha resposta. Recusava-se a responder a tamanha mesquinharia.

Além de tudo, Lionel trazia na lapela o adereço que havia sido destruído pelo tiro que levara no coração. Estava intacto. E o fato estava limpo, sem nenhuma gota do Porto Ruby que o ex-defunto bebia, aquando do ataque contra si. A mistura do vinho doce com sangue espalhara-se pelo casaco, que ficara tingido de vermelho.

Lionel chegou e beijou a sua mulher, em choque e sem explicação para o sucedido. Para não piorar a situação, ela nada dizia. Lionel também não falava, perante as pessoas que foram percebendo do seu regresso ao mundo dos vivos. A música, claro, continuava. E a comida, também seguia, evidentemente. A nobreza da cidade, ali reunida, não pretendia que a festa, paga pelo magnata anfitrião, parasse por qualquer motivo que fosse.

Eram cinco da tarde quando Lionel dirigiu-se para a mesa das bebidas. Na semana passada, havia sido exatamente àquela hora que o encapuçado lhe tirara a vida com aquela bala: uma recordação tão dolorosa.

O empregado arrepiou-se ao ver Lionel aproximar-se. Nestes dias, ouvira vezes sem conta a história de sua misteriosa morte. Lionel lhe dirá: ouça rapaz, parece que viu um fantasma! Dê-me um copo de vinho do Porto. Mas, por favor, sirva-me um Porto Tawny. Da última vez que bebi um Ruby fui assassinado.

Um trompete no coreto

As mãos, estranhamente, tremiam. Armando Charistas, trompetista, nunca havia passado por isto. Mal conseguia pegar no trompete. Era impossível tocar uma única nota musical. Charistas acabara de fazer uma grande viagem, desde a Ilha Inquestionável até Lisboa. Seguira indicações precisas para chegar ao Largo do Coreto Secreto, a partir do Rua do Arco a São Mamede. Agora, junto à sede da sua nova orquestra, sentia que a tremedeira, que fora crescendo a cada quilómetro percorrido, estava num ponto quase irreversível. Decidiu que, apesar de estar tudo combinado para aquele dia, não poderia ir ao encontro de Lauratti Retorno, Maestro carismático da orquestra. O que o Maestro pensaria? Ponderou o que fazer enquanto olhava a praça vazia, secreta, de uma enorme beleza. Tinha fome e não queria circular por uma cidade desconhecida com o seu raro trompete. Subiu o coreto, sentindo a força daquele palco, imaginando-se como membro da banda. Ali o seu trompete estaria seguro. Mesmo que o encontrassem, ele seria guardado e respeitado pela banda. Deixou-o num canto que lhe parecia adequado e desceu as escadas, vagarosamente. As suas mãos tremiam muito, sentia-se estafado.

Desfez o caminho que o trouxera até ali. Passou pela vedação por onde entrara, na Rua do Arco à São Mamede. Caminhou alguns minutos e encontrou uma padaria, com pães quentes, na Rua da Rosa. Alimentado, adormeceu tranquilo, num banco da Praça do Príncipe Real. Era o primeiro descanso depois da viagem. Da Ilha até Lisboa não havia relaxado, nervoso com o primeiro ensaio.

Horas mais tarde acordou, sem ansiedade, sem tremor. Passeou pelo Bairro Alto, tirou fotografias, escreveu sobre a beleza da cidade. Acabou por ficar alguns dias nesta deliciosa rotina.

Uma semana depois, enquanto consultava o mapa para voltar ao Largo do Coreto Secreto, voltou a sentir o estranho tremor nas mãos.

Tudo o que o vento leva

Há finais que se aproximam com anúncio, pompa e circunstância. Às vezes não é assim. Desta vez, não sendo, era como se fosse. Eles talvez estivessem tranquilos ao perceber a vinda desta possibilidade. Ele, em concreto, estava especialmente descansado, apesar de estar indignado. Não queria que este dia chegasse – fez todos os esforços em sentido contrário. Desmontou todas as expectativas em torno disto. Até já havia uma data possível para um concerto, numa excelente sala. Seria interessante fazer um post sobre o show, se ele de facto não viesse a ocorrer. Ocorreria?

Esperanças

Na Antologia Poética “Entre o Sono e o Sonho – Volume VIII” publiquei as tais “Esperanças” que dão título a este post.

Sábado passado fomos ao lançamento da obra, no Teatro Tivoli. O Teatro, ou cinema, estava cheio. O meu melhor amigo levava cinco carrinhos, todos ao estilo do faísca: o faísca, o outro faísca, o faísca preto, o faísca da avó e o faísca roxo. Os carros desciam a rampa em forma de cadeira, indiferentes às leituras que ali decorriam. A restante plateia não queria saber de corridas. E devem ter razão que rallys não combinam com poesia. De maneira que achamos por bem, sem lamentações, prosseguir a nossa sessão na avenida da Liberdade, num quiosque, a comer brigadeiros e a beber sumo de manga.