o dobro (ainda eusébio)

das melhores coisas que vi durante estes dias foi um vídeo pelé e eusébio, juntos. diziam que que se tivessem jogado hoje em dia tinham feito o dobro dos golos, porque iam ter uma preparação maior para o talento que naturalmente tinham. uma mistura de pedrada no charco, forte auto-estima individual, desassombro e uma forma genial de cessar aquelas discussões sobre quem é o melhor de todos os tempos. são eles. ponto final.

eusébio, iii

eusébio foi muito utilizado por salazar. é uma figura que serviu – voluntariamente ou não – para legitimar as suas políticas. isso é simplesmente factual.

o lugar de eusébio no estado novo:

“É evidente que as retóricas integracionistas do Estado Novo na década de 60 obrigavam a outras representações do africano, nomeadamente a de um sujeito colonial assimilado à sociedade portuguesa. Eusébio ajustava-se bem a esta imagem. (…)

Apesar do reconhecimento do seu mérito, a apreciação entusiástica que mereceu não resultava de uma inusitada consciência de igualdade racial, tão-pouco poderia servir de prova de que a sociedade portuguesa estava preparada, devido a uma característica cultural adquirida, a aceitar a diferença.”

eusébio, ii

Mas uma coisa é homenagear Eusébio, outra essa histeria colectiva patrocinada pelos órgãos de comunicação social, que durante vários dias reduz o mundo todo a uma espécie de comoção nacional generalizada, dramatizada até aos limites, envolvendo tudo e todos num happening de dor encenada, porque a real passa-se sempre fora dos ecrãs. Há algo de pouco sadio em todos estes excessos, algo do mal português que facilmente se identifica como a consciência envergonhada da fraqueza transformada em vanglória. Há uma mistura de nacionalismo, de vontade que os outros nos respeitem, apesar de não nos respeitarem, uma vontade de ser alguma coisa no mundo, que efectivamente não somos, e que nunca seremos se nos ficarmos apenas pelas “glórias” do futebol, seja Eusébio, seja Cristiano Ronaldo. 

jpp, no abrupto.

eusébio, i

eusébio morreu, já faz dias. foi no dia de reis. é suficientemente mau perder eusébio, ainda que fosse de certa forma esperado. pior mesmo foi ser brindado com os excessos da televisão, escalpelizando tudo e mediatizando os pormenores do costume. pouco cuidaram de futebol. em sentido contrário, acho que eusébio terá gostado de saber que estivemos vendo o portugal-coreia do norte na íntegra numa das tvs. ainda eusébio teve azar de mandela se ter ido embora há pouco tempo. assim, aqui e ali havia um certo complexo, uma certa mandelização de alguns comentários, como se eusébio tivesse de ser comparado a tal personalidade.