Fumaça

Uma bicicleta circulava à minha frente. O rio via tudo ali bem perto. Andei devagar. Pobre ciclista não sabia que tenho sonhado com travagens bruscas, que quase choco contra os carros à minha frente. Há distâncias de segurança que se devem preservar para não haver acidentes. Aqui não se aplica o quilómetro e meio que alguns referem na doutrina. Senti um cheiro a fumo no carro. Cheirava mal. Motor? Óleo, embraiagem, ar condicionado? Na Praça do Comércio, um vendedor de castanhas impregnava o ar com a fumaça das castanhas. Afinal cheirava bem. Cheirava a Lisboa no inverno. A bicicleta subiu o passeio e parou perto do fogo. Terá dito meia dúzia e aqueceu as mãos dentro das luvas, com o seu pedido embrulhado em folhas das páginas amarelas. Eu continuei, engatei a terceira: um veículo a motor não tem direito a poesia.

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Borboletas na Costa do Castelo

Paul passou à porta da casa na Costa do Castelo. Tinha saudades. Foram umas semanas muito agradáveis, lendo e tirando notas na janela-miradouro. Ia a caminho do Chapitô, beber um copo, apreciar a vista e ouvir música. Hoje não seriam os Understood a ir lá tocar, era chorinho. O trabalho de revisão final estava feito. Faltava só uma última leitura, antes de tudo fixar-se, antes da mancha gráfica. Uma borboleta amarela pousou na sua máquina fotográfica. Logo a seguir uma lilás pousou na sua mão e outra, verde, num marco de correio próximo. Olhou para cima. Milhares de borboletas a voar no céu de Lisboa. Muitas memórias continuavam a vaguear pelas ruas. Era impossível guardá-las a todas.

Sem princípio

Sabes que aos domingos os meus hábitos são estanques como a vista do Grand Canyon. Gosto de acordar, pegar na caneta e no bloco de notas. A seguir compro o jornal e vou para o Miradouro da Graça. Peço meu café “sem princípio” e deixo-me ficar. Leio, escrevo e perco-me na paisagem de Lisboa. É impossível não esmiuçá-la detalhadamente. Imagino as vidas que decorrem em cada uma das ruas, travessas. Aquela mãe, com aquele carrinho de bebé, navegando com dificuldade as ruas empedradas, aquele senhor a vender castanhas, aquele jovem que compra as castanhas e que, se repararmos bem, está a agarrar um ramo de flores. Para quem será?

Lembras o dia em que te mostrei que conseguia ver, no lado oposto, o Miradouro São Pedro de Alcântara e a montra da nossa pastelaria favorita? Ela ainda está lá, apesar de a gerência ter mudado. Daqui, porém, tudo permanece igual, intocado.

Sei que fizeste força para que as minhas rotinas fossem alteradas. Sei que ficaste exasperada com as minhas manias e obsessões. Ficaste desapontada por eu não trocar o meu miradouro por nada. Não podia ceder. Estava – e estou – demasiado apaixonado pelo casario, pelas vidas imaginárias, pelas minhas reflexões. Estático deambular pela cidade.

Por vezes nem sei bem se estiveste aqui comigo. Depois olho para esta marca que deixaste, quando o teu lápis fugiu do papel e rabiscou a mesa, eternizando o momento. O desenho que resultou também é uma marca da tua presença. Agradeço-te. A “tua” Igreja da Graça em tons de carvão ilumina a minha secretária, os meus dias de trabalho. Preto e branco, ao mesmo tempo colorido e refrescante.

Por aqui sigo. Meus hábitos e minhas rotinas. Meu mundo em meu miradouro. Estou à tua espera para que, desta vez, consigas levar-me daqui.

Rodrigo Cambará

[Avenida Bagé, 1220]. Faz cerca de trinta anos, eu devia ter nove. Acho que o quarto era o do Carlos, ou algo assim. Gabei-me que tinha lido 30 páginas de “Um certo Capitão Rodrigo“. Disseram-me que o bom era lê-lo todo. De lá para cá nunca mais tinha pegado em “O Tempo e o Vento” de Erico Veríssimo.

[Avenida Benjamin Constant]. No ano passado comecei a ler o “Continente” que inclui “Um certo Capitão Rodrigo”. Tive necessidade de ler um pouco da História do Rio Grande do Sul. Escolhi a do Moacyr Flores, apesar de outras indicações. É impossível não lembrar das vivências com sabor a despedida, de então.

[Parque das Nações]. Mas este post, que traz tudo isto agregado, é simplesmente para dizer que no dia 23 de setembro terminei “Um certo Capitão Rodrigo”. Seguirei pelo continente afora, devagarinho e pausado, como o tempo e o vento permitirem.

O comboio de Piazolla

Não se conseguia perceber de onde vinha o comboio. As primeiras pessoas o viram logo após Vila Franca. Dali foi sendo acompanhado pelas autoridades. Na linda Gare do Oriente, de Calatrava, solicitou-se que parasse. A ordem foi ignorada. Com urgência preparou-se a sua chegada a Santa Apolónia. O alívio de ver as carruagens pararem na estação foi rapidamente substituído por surpresa. Nem maquinistas, nem pessoas, nem malas. Nada. O comboio estava completamente vazio.

A procura de respostas levou a mais intrigantes factos: o comboio tinha como destino a Estação Retiro, em Buenos Aires. E tinha uma linha de pauta pintada nele todo. Começava na última carruagem, passava pelas outras e terminava na locomotiva. Contatou-se a Argentina e o mistério ainda adensou-se mais: um comboio igual – e com uma pauta! – havia desaparecido, recentemente.

Jose, mestre do bandoneón, acabava de chegar a Lisboa. Vinha de Sevilha. Estava em tour ibérica, com a sua banda. Olhou as carruagens e o aparato policial. Caminhou pela plataforma, lentamente. Até que parou e pegou no bandoneón. Xavi pegou no violoncelo, Ernesto na guitarra e começaram a interpretar a música. Paula entrou a seguir, com as palavras: Vuelvo al Sur, como se vuelve siempre al amor, vuelvo a vos, con mi deseo, con mi temor.

Ao fim da música os motores ligaram-se. Vuelvo al sur passou a figurar na placa de destino do comboio, que iniciou a marcha. Jose, Xavi, Ernesto e Paula, inadvertidamente, correram para dentro dele. Estupefatos, todos viram a saída das carruagens da estação, que, poucos metros depois, evaporaram-se.

Na gare lisboeta as colunas foram tomadas pelas melodias de Piazzolla, durante todo o dia, apesar de inúmeras tentativas para desligá-las.

Naquele mesmo dia, o comboio ressurgia próximo a Buenos Aires. O tour da banda de Jose terminava.