De volta

Mas o melhor de tudo, é mesmo voltarmos a juntar os quatro de sempre, com as suas diferenças, manias, convergências, resmunguices e acertos. A partir da próxima segunda, com alguma decalage de horários, os Understood voltam ao seu formato inicial, por uma hora e vinte, pelo menos. O resto é preenchido pelas cordas. Há muita coisa nova para criar, músicas por gravar e concertos para preparar.

ZP

Fica o registo de um gajo altamente, que estudou as músicas e que fez o melhor que conseguiu. O Zé Paulo parecia que já nos conhecia há muito tempo. Trazia a Old Whisky bem estudada e foi interessante ver que ele gostava tanto de nossas músicas, que era tão desafiado por elas.

Jam sessions em toda a parte

Francis e Mick (este com o seu toque de jazz) estiveram a tocar conosco. O Márcio também (e foi brutal). Todos excelentes em vários sentidos. Gostam sempre muito das canções. Neste tipo de sociedades importa muito menos a técnica do que a empatia que todos nós temos de ter. De um lado e de outro. Uma espécie de sentimento de família. Depois de um ano à espera, a procura começou muito a sério. Como sempre, tudo vai dar certo. Somos imparáveis.

Strange Days

Oculto entre as notas, o bordão quase não aparecia. Dava o tom, resguardado, por trás de um solo exibicionista. Dava sentido às músicas, de forma quase impercetível. O vocalista, um grande fã de Doors, que tinha o cabelo igual ao de Jim Morrison, ignorava a teoria musical. Mas tinha feeling, tinha faísca. Run with me, run with me, let´s run! Naquele tempo um bar não era asfixiado com todas as regulamentações e normas técnicas dos tempos de hoje. As pessoas tratavam de emborcar a cerveja mais gelada possível, para compensar o calor dantesco do estabelecimento, aquecido pela invasão de corpos a dançar freneticamente nas noites lisboetas de verão. Quem não gostava, apenas tinha uma solução: não participar da festa que ali decorria – um festival de extravagância, de transpiração, de álcool e até de drogas, se tivermos atenção ao rapaz vestido de branco que não dança e que provê o pó necessário para viajar.

Dália estava à porta. A combinação era encontrar-se ali com Pedro, no Strange Days, o pub mais volátil do Bairro Alto. Conhecera-o numa missa e desde então começaram a encontrar-se todos os dias, para estudar e rezar. Era bom rapaz. Dália viu todas aquelas pessoas, naquele ambiente assustador. Detestava aquilo. Ouvia o teclado que dava o ritmo, substituindo o bordão da guitarra baixo inexistente na banda, tal como nos Doors. A porta escancarada não impedia Dália, uma flor petrificada, de entrar. Porém, ela optara por ficar de fora. Esperaria Pedro chegar e o levaria para longe dali, aquilo não era lugar para eles. Uma espécie de segurança, ou insegurança (porque tinha a missão de permitir que todos continuassem no frenesim que estavam, mas em paz), meteu conversa com ela. Não quer entrar, lindeza?, disse com a voz meio arrastada, graças à vodka. Tenho encontro com um amigo, o Pedro, respondeu Dália. Há muitos Pedros no mundo. Um deles parece ser a encarnação do Jim e dança no palco, replicou, divertido, o “insegurança”. Dália não lhe deu qualquer atenção. Sentiu até um pouco de receio. Porque raio Pedro havia combinado o encontro ali? Queria ir para um lugar mais calmo, depressa.

The End fecharia a noite. A banda entrava em transe, como os Doors. O vocalista começava a dançar, como Morrison. Agora deixava-se cair no chão. Parecia totalmente pedrado, possuído.

Dália começava a perder a paciência com a espera. Saiu da porta, começou a subir a Rua da Rosa, voltando para casa. Dália!, ouviu chamar. Pedro vinha em sua direção. Ainda transpirava por causa da apresentação da banda, cheirava a álcool. Dália notou e não se conteve: Estás tão transpirado, o que houve?, perguntou. Não foi nada, estive a estudar até agora e vim a correr. No meio do caminho, tomei uma ginjinha, disse o amigo. Bem, que sítio horrível aquele que disseste para eu te esperar, desabafou Dália.

Sentaram num bar tranquilo. Dália contou-lhe o seu dia. Pediram dois sumos de laranja, com um pouco de açúcar, tenho direito a alguns excessos, sublinhou Dália ao garçon. Pedro gostava dela, achou engraçado ela dizer isso. Tinha vontade de lhe substituir o açúcar e dar-lhe LSD. Cantou-lhe: You know that it would be untrue, You know that I would be a liar, If I was to say to you, Girl, we couldn’t get much higher. Dália riu e disse: Sabes que o vocalista da banda que estava a tocar no Strange Days, também chamava-se Pedro? Tu com este cabelo, daquele poeta doido, o Jim Morrison, a cantar Light My Fire… Podia ser que me pudesses surpreender, mas és tão previsível Pedro… Está quase na hora de irmos para casa, amanhã temos missa, logo às 9 da manhã.

Trilha sonora:

Not to touch the earth; The end; Light my fire.