Faz-me lembrar duas pessoas, todos os dias

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Perda

Viajar no nosso próprio blog é também viajar no tempo. Em busca de um vídeo descobri a perda. Há links que desapareceram. Muitos. Digo maravilhoso, excelente, outros adjetivos, a enunciar as qualidades do vazio, de um buraco negro, do vídeo e sobretudo da música que já não está lá. Se eu lembro de alguma música que (não) está lá é fruto do mais importante registo: a memória. Já a escrita fica para sempre, como se estivesse gravada na pedra. Ou talvez não. Enquanto escrevo isto Juan Esteban Quacci toca por trás um tango, no youtube. O violino, o piano e o bandoneon lacrimejando notas emocionadas, enquanto a música está no ar. Aproveite. Pode ser a despedida.

L.A. Woman

Ontem L.A. Woman apareceu entre nós, ainda que não de forma explícita. Incrivelmente era o TV na bateria, eu com um efeito esquisito e o Jota a fazer uns riffs engraçados na guitarra. Eu estava distraído tocando, mas o Jota e o TV começaram a falar que aquilo parecia Doors. Confesso que não estava ligado. Mas logo comecei a suspeitar que era L.A. Woman. Em casa confirmei e não estava errado. Como podia estar? Mesmo estando tantos anos sem ouvir, são milhares de horas de Doors que estão incorporados no meu cérebro!

Pompeii

Havíamos explorado as ruínas, conhecido os recantos de Pompeia. Estava calor. Não tanto como a temperatura da lava que se havia esparramado pela cidade, em 79. E agora, na Arena, aproveitávamos para beber água fresca e comer, sentados nas arquibancadas.
Umas notas soltas surgiram, depois uma melodia arrastada e finalmente o baixo e a bateria entraram, espalhando-se pela aridez do espaço. Olhamos um para o outro. Não havia qualquer explicação. Apenas a música. Uma voz entrou:
Overhead the albatross
Hangs motionless upon the air
And deep beneath the rolling waves
In labyrinths of coral caves
An echo of a distant time
Comes willowing across the sand
And everything is green and submarine
O vocalista cantava sozinho, sem microfone, mas a sua voz enchia todo o espaço. Segundos depois, mais pessoas surgiram no palco. Todos, inclusive um baterista – sentado num pequeno banco de madeira – pareciam tocar outros instrumentos imaginários, guitarras, baixo e teclados. Eram os Pink Floyd.
Tentando aproveitar o momento, apesar de tanta euforia, era assim que estávamos. Demos as mãos para termos a certeza que víamos o mesmo.
Strangers passing in the street
By chance two separate glances meet
And I am you and what I see is me
And do I take you by the hand
And lead you through the land
And help me understand
The best I can
Chegada esta fase da música, os instrumentos, colunas, luzes e amplificadores passaram a estar visíveis. Como era possível os Pink Floyd estarem ali connosco, vindos diretamente de 1972? Levantamos, fomos para a primeira fila, vagarosamente. Ouvimos a música, contemplando aquela aparição, tão real. Quando a canção terminou batemos palmas. Lembro bem da expressão dos elementos da banda para nós, como que a dizer não deviam ter feito isto.
Um segundo depois só o chão árido restava, só o calor. Nada havia a fazer. Continuamos a visita, continuamos a conhecer Pompeia. Fica para sempre na memória.